Participação do Exército no combate ao crime perde apoio popular no México

Soldado mexicano em Ciudad Juárez
Image caption Ciudad Juárez é um dos principais focos de violência no México

A participação do Exército no combate ao crime organizado vem perdendo apoio popular no México, segundo pesquisa divulgada nesta semana.

Num momento em que as Forças Armadas brasileiras passaram a se envolver no combate a criminosos no Rio de Janeiro, um analista mexicano ouvido pela BBC Brasil opina que a estratégia do governo do México contra o crime organizado já não tem o respaldo de antes.

Em agosto deste ano, 70% dos mexicanos concordavam com o envolvimento direto do Exército no combate ao narcotráfico, e em novembro esse índice caiu para 54%, segundo o levantamento GEA-ISA (Grupo de Economistas e Associados e Investigações Sociais Aplicadas). Em agosto de 2008, esse apoio era de 85%.

“O apoio à participação do Exército caiu porque os crimes não diminuíram. Ao contrário. Diariamente temos novos casos de violência, de homicídios a sequestros, assaltos e roubos de automóveis em todo o país”, disse o analista mexicano Ernesto López Portillo Vargas, do Instituto para a Segurança e a Democracia.

O México trava há quase quatro anos uma forte batalha contra o tráfico de drogas, e os confrontos já deixaram pelo menos 30 mil mortos.

Em Ciudad Juárez, na fronteira com os Estados Unidos e um dos principais focos de violência no país, a Polícia Federal passou a ocupar, em abril, áreas antes patrulhadas pelos soldados do Exército, segundo a imprensa local.

Por sua vez, os militares se mudaram para pontos estratégicos como estradas, fronteiras e aeroportos.

Estratégia

A mesma pesquisa GEA-ISA revelou que a aprovação popular da estratégia adotada pelo governo contra o crime organizado caiu para 50% neste mês, seu índice mais baixo. Essa aprovação já foi de 88%, em junho de 2007.

“A estratégia do governo está concentrada nas áreas de segurança, policial e militar. Mas isso por si só não será capaz de resolver o problema. E muitas vezes a ação policial, isolada, tende a gerar ainda mais violência”, afirmou Portillo Vargas.

Na sua opinião, são necessárias medidas conjuntas, como a “geração de oportunidades permanentes” para os moradores das regiões carentes.

“A ação policial deve ser consequência, e não solução para um problema que surge das falhas no tecido social do país. O governo conta hoje com amplo orçamento para segurança, mas não planejou ações sociais paralelas”, disse o especialista.

Segundo Portillo Vargas, a situação econômica do México contribui para o aumento da violência. “Hoje, 7 milhões de jovens mexicanos, com idades entre 18 e 29 anos, estão ligados de alguma forma ao crime. Eles não têm educação ou trabalho e acabaram na delinquência”, disse.

Em fevereiro deste ano, na tentativa de reduzir a criminalidade em Ciudad Juárez, o presidente mexicano, Felipe Calderón, lançou um pacote de medidas que inclui bolsas de estudos para estudantes de áreas carentes. A ideia é fazer deste um plano piloto para outras áreas afetadas pela criminalidade, segundo a imprensa local.

De acordo com a pesquisa GEA-ISA, 40% dos entrevistados acham que as operações contra o crime estão cumprindo seus objetivos. Na pesquisa anterior, em agosto, eram 55%. E, em 2008, esse índice era de 74%.

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