Em meio a cerco no Complexo do Alemão, Cabral diz que governo não recua

Mais de 2 mil homens estão posicionados nos 44 acessos do complexo.
Image caption Soldado aponta fuzil em meio a jornalistas no Complexo do Alemão.

O governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, afirmou neste sábado que o governo do Estado não vai recuar da estratégia de retomar o controle do Complexo do Alemão, onde estão centenas de traficantes, com o objetivo de "garantir o ir e vir das pessoas".

"As operações em curso no Rio de Janeiro, desenvolvidas por nossos policiais, pela Polícia Federal e pelas tropas militares, são essenciais para garantir o ir e vir das pessoas", afirmou o governador, por meio de comunicado.

As forças policiais e militares mantêm na noite deste sábado o cerco ao Complexo do Alemão, com mais de 2 mil homens posicionados nos 44 acessos do complexo.

No total, são 800 soldados da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército, 300 agentes da Polícia Federal (PF) e 1,3 mil homens das polícias Militar e Civil.

Blindados do Exército e da Marinha e veículos do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope) são utilizados na operação. A Polícia Militar estima que entre 500 e 600 traficantes estejam no Complexo do Alemão.

Segundo o governador, as equipes de Segurança têm informado a população sobre os eventos no Rio. Para ele, "o momento é de retomada de territórios, de afirmação da ordem e do Estado de Direito Democrático".

"Estamos todos unidos. Todos com o mesmo propósito: seguir em frente sem qualquer recuo na busca da libertação das pessoas do poder de bandidos nas comunidades", disse Cabral.

Cabral diz que seu compromisso é "pacificar todas as comunidades onde houver o domínio do poder paralelo".

Ultimato no por-do-sol

À tarde, o coronel Lima Castro, relações públicas da PM do Rio, chegou a dizer a jornalistas que os traficantes teriam até o por-do-sol para se entregar. No entanto, a PM ainda não iniciou a ocupação das favelas.

"A proposta é de paz, mas se formos chamados à guerra, vamos responder com a mesma força", afirmou.

A PM estabeleceu um procedimento para que os traficantes se rendessem. Eles deveriam se apresentar com fuzis sobre as cabeças e entregar as armas num posto montado na rua Joaquim Queiroz, no Complexo do Alemão, próximo à Estrada de Itararé.

Segundo Lima Castro, os bandidos estão "desgastados e estressados", sem mantimentos e munição. O coronel afirmou que a superioridade numérica e de equipamento das forças de segurança é total. "Tudo é favorável a nós".

O comandante do Batalhão de Choque, Waldir Soares Filho, disse a jornalistas que todas as pessoas que entram ou saem do Complexo do Alemão estão sendo revistadas e sendo obrigadas a apresentar documento de identidade.

Image caption Moradora foge de casa em meio a soldados no Morro do Alemão.

Ao longo do dia, o Exército realizou vários bloqueios no Complexo do Alemão, parando e revistando pedestres, carros, motos e caminhões para evitar a fuga de traficantes.

Traficantes detidos

No total, 31 pessoas foram detidas e encaminhadas para averiguação pela Polícia Civil.

Entre eles, está Edson Souza Barreto, o "Piloto", 49 anos, chefe de segurança de Fabiano Atanázio, o "FB", chefe do tráfico na Vila Cruzeiro. Segundo a Polícia, ele tentou fugir da Vila Cruzeiro ao se mesclar a um grupo de moradores que descia o morro portando bandeiras brancas.

Já Diego Raimundo Santos, conhecido como "Mister M", se rendeu à Polícia no Morro do Alemão. Ele é suspeito de fazer a segurança do traficante "Pezão", que chefia o tráfico no local. A mãe de “Mister M” disse a jornalistas que convenceu seu filho a se entregar.

Duas pessoas foram feridas a tiros na região na manhã deste sábado, ao tentar escapar do cerco. Os dois suspeitos foram atendidos em um hospital local e levados à delegacia da região em seguida.

O coordenador da ONG Afroreggae, José Júnior, esteve no Complexo do Alemão e tentou convencer traficantes a se entregarem.

“Ninguém falou que queria partir pro enfrentamento, mas não quer dizer que ninguém vá”, afirmou ele à imprensa no local ao sair. “Tentei passar pra eles que deveriam se entregar, para que não morressem e também não expusessem os moradores."

Transferência de presos

Neste sábado, dez homens presos por envolvimento nos ataques no Rio foram transferidos para o presídio federal de Catanduvas (PR), por meio de um avião que partiu do aeroporto Santos Dumont.

Na madrugada de quarta para quinta-feira, outros dez presos foram levados para Catanduvas, que, por sua vez, teve prisioneiros transferidos para Porto Velho (RO).

"A qualquer momento, quando a inteligência do Rio detectar que o melhor caminho é a transferência de pessoas para fora do estado, elas serão enviadas para presídios federais, como já vem sendo feito", disse o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto.

O objetivo do rodízio é evitar a proximidade dos presos entre si ou com funcionários dos presídios. De acordo com o ministro, a Polícia Rodoviária Federal está em alerta para impedir a fuga de traficantes do Rio, e todo o aparato de segurança do governo federal está à disposição do Estado.

"Entramos numa nova fase, com um pacto federativo com integração absoluta entre todas as forças de segurança para superar essa crise no Rio", disse.

No total, 35 pessoas já morreram desde o início do conflito entre polícia e traficantes no Rio, há uma semana. Entre as vítimas, mais de 20 são traficantes.

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