Polícia se prepara para entrar no Complexo do Alemão

Morador passa em frente ao veículo Cascavel do Exército, no Morro do Alemão
Image caption Moradores tentaram retomar rotina neste sábado

O comandante da Polícia Militar (PM) do Rio de Janeiro, coronel Mário Sérgio Duarte, disse neste sábado que a polícia vai entrar no Complexo do Alemão a qualquer momento e que deu um ultimato para que os traficantes se rendam.

"Quem quiser se entregar, que o faça agora", disse em entrevista coletiva no 22º BPM, na Maré, ao lado do ao conjunto de favelas, na Zona Norte.

A PM estabeleceu um procedimento para que os traficantes se rendam. Eles devem se apresentar com fuzis sobre as cabeças e entregar as armas num posto montado na rua Joaquim Queiroz, no Complexo do Alemão, próximo à Estrada de Itararé – palco de intenso tiroteio entre traficantes, policiais e militares na sexta-feira.

O coronel Lima Castro, relações públicas da PM do Rio, disse a jornalistas que os traficantes têm até o por-do-sol para se entregar. "A proposta é de paz, mas se formos chamados à guerra, vamos responder com a mesma força", afirmou.

"Já existe um esquema para que essas pessoas se entreguem. É uma oportunidade que a gente está dando", disse o PM. A corporação estima que entre 500 e 600 criminosos estejam no Complexo do Alemão.

Segundo Lima Castro, os bandidos estão "desgastados e estressados", sem mantimentos e munição. O coronel afirmou que a superioridade numérica e de equipamento das forças de segurança é total. "Tudo é favorável a nós".

Revista nos acessos ao morro

Já o comandante do Batalhão de Choque, Waldir Soares Filho, disse a jornalistas que os traficantes que não se entregarem "estão fazendo a escolha por um possível enfrentamento".

Segundo Soares, todas as pessoas que entram ou saem do Complexo do Alemão estão sendo revistadas e sendo obrigadas a apresentar documento de identidade.

O coordenador da ONG Afroreggae, José Júnior, está na comunidade e pode agir como mediador para negociar a rendição dos criminosos.

No microblog Twitter, Júnior afirmou que alguns traficantes já se entregaram. "Clima tenso no Complexo do Alemão. Os moradores fazem corrente de muitas orações", disse.

A Polícia Civil do Rio informa que prendeu Edson Souza Barreto, o "Piloto", 49 anos, chefe de segurança de Fabiano Atanázio, o "FB", chefe do tráfico na Vila Cruzeiro. Segundo a Polícia, ele tentou fugir da Vila Cruzeiro ao se mesclar a um grupo de moradores que descia o morro portando bandeiras brancas.

Já outro suspeito, conhecido como "Mister M", se rendeu à Polícia no Morro do Alemão. Ele fazia a segurança do traficante "Pezão", que chefia o tráfico no local.

Presos transferidos

Neste sábado, dez homens presos por envolvimento nos ataques no Rio foram transferidos para o presídio federal de Catanduvas (PR), por meio de um avião que partiu do aeroporto Santos Dumont. Na madrugada de quarta para quinta-feira, outros dez presos foram levados para Catanduvas, que, por sua vez, teve prisioneiros transferidos para Porto Velho (RO).

Image caption Soldados foram mobilizados para controlar acessos de favelas no Rio

"A qualquer momento, quando a inteligência do Rio detectar que o melhor caminho é a transferência de pessoas para fora do estado, elas serão enviadas para presídios federais, como já vem sendo feito", disse o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto.

O objetivo do rodízio é evitar a proximidade dos presos entre si ou com funcionários dos presídios. De acordo com o ministro, a Polícia Rodoviária Federal está em alerta para impedir a fuga de traficantes do Rio, e todo o aparato de segurança do governo federal está à disposição do Estado.

"Entramos numa nova fase, com um pacto federativo com integração absoluta entre todas as forças de segurança para superar essa crise no Rio", disse.

Baixada Fluminense

O Rio de Janeiro voltou a registrar novos ataques na madrugada deste sábado, desta vez na região da Baixada Fluminense.

Segundo a Polícia Militar foram incendiados quatro carros em dois pontos diferentes do município de Nova Iguaçu, sem registro de prisões ou de mais feridos.

As forças policiais e militares mantêm o cerco ao Complexo do Alemão neste sábado, com 800 homens da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército posicionados nos 44 acessos do complexo. O Exército realizou vários bloqueios, parando e revistando pedestres, carros, motos e caminhões, para evitar a fuga de traficantes.

No entanto, duas pessoas foram feridas a tiros na região na manhã deste sábado, ao tentar escapar do cerco. Os dois suspeitos foram atendidos em um hospital local e levados à delegacia da região em seguida.

No final da noite de sexta-feira, tiros com balas traçantes atingiram a base onde estão abrigados os policiais militares do Batalhão de Choque da Polícia militar na região.

Feridos

Num acesso ao bairro de Olaria, o tiroteio na noite de sexta-feira deixou pelo menos seis pessoas feridas: três mulheres, um fotógrafo da agência Reuters, um militar da Brigada Paraquedista do Exército e uma criança de dois anos, que foi atingida no braço por um tiro de fuzil dentro de casa.

Mais cedo, um tenente foi atingido por disparos vindos do Morro da Chatuba, uma das 15 favelas que compõem o Complexo do Alemão. Um traficante apontado como um dos chefes do tráfico no Alemão morreu.

O fotógrafo da Reuters, Paulo Whitaker, foi atingido no ombro por uma bala perdida quando estava dentro de um táxi, e o militar levou tiros na perna. Na mesma região, traficantes do Morro da Baiana também dispararam contra os militares. A Reuters informou que Whitaker não corre risco.

A pedido do governo do Estado, um efetivo do Exército foi deslocado para a região para oferecer apoio à Polícia Militar após a operação policial que conseguiu ocupar a Vila Cruzeiro, conhecida como um dos maiores redutos do tráfico no Rio, na quinta-feira.

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