Após vazamentos, diplomatas dos EUA devem esperar caminho árduo pela frente

Wikileaks
Image caption Documentos começaram a ser divulgados no domingo pelo Wikileaks

A avalanche de documentos do supostamente seguro sistema interno de e-mails ligando as embaixadas americanas no exterior com o Departamento de Estado e o Pentágono, em Washington, é um pesadelo para a diplomacia americana.

Um comunicado da Casa Branca observou em resposta que, por sua própria natureza, “os relatos de campo para Washington são informações francas e frequentemente incompletas”.

“Não é uma expressão da política e nem sempre determina as decisões políticas finais”, afirma.

Isso pode ser verdade. Mas os líderes mundiais não esperam ter suas conversas privadas com autoridades americanas ou análises francas de suas capacidades ou peculiaridades publicadas para todo mundo ver.

Esta é uma violação da segurança da mais alta ordem, e se não houver ao menos um mal-estar temporário entre os diplomatas americanos e os governos estrangeiros – especialmente os governos amigos – o governo americano vai precisar convencer seus aliados de que uma violação como essa não acontecerá novamente.

Há uma ironia terrível aqui, já que este método centralizado de troca de comunicados diplomáticos importantes foi instituído como parte dos esforços após os atentados de 11 de setembro de 2001 para fazer com que diferentes partes da máquina do governo americano se comunicassem melhor entre si.

Mina de ouro

Outra história embaraçosa é a que sugere que as autoridades americanas cruzaram a linha da diplomacia para a espionagem ao coletar toda espécie de dados sobre autoridades das Nações Unidas, sobre o sistema de comunicações da ONU e assim por diante.

Aqui, também, não há grandes surpresas. Sim, é um fato: a maioria dos governos, se têm os recursos e também a percepção de necessidade, espionam sobre todo tipo de países e organizações, amigos ou não.

Mas novamente, tudo isso impresso no seu jornal no café-da-manhã não é uma leitura muito confortável.

Em termos de política, há pouco neste primeiro lote de histórias que seja especialmente novo.

Tome-se por exemplo as alegações de que o Irã e a Coreia do Norte colaboraram com seus programas de mísseis. Esta tem sido uma visão convencional de muitos especialistas em mísseis balísticos por muito tempo.

Mas esta horda de documentos vai se provar uma mina de ouro para pesquisas acadêmicas.

Pesquisadores sérios de política externa serão capazes de ter algo sobre informações internas da diplomacia americana nos anos cobertos pelos documentos divulgados, ao menos em termos de serem capazes de monitorar algumas das informações consideradas no processo de tomada de decisões políticas.

A cobertura do New York Times já foi capaz de montar um estudo fascinante das mudanças e reviravoltas da política americana sobre o Irã e sobre como isso se relaciona com os laços entre Arábia Saudita e China – Pequim recebeu a oferta de suprimento de petróleo garantido se o país cortasse seus laços com o Irã – e o debate entre Estados Unidos e Rússia sobre defesa anti-mísseis.

O objetivo dos americanos em ambos os casos era conseguir o apoio da Rússia e da China às sanções contra o Irã.

Pequena parte

Apesar de fascinantes, os documentos divulgados até agora não trazem nenhum caso no qual acreditávamos que a política americana era X e que na verdade se comprovou que era Y.

Há, por exemplo, algum grupo nebuloso com o qual os Estados Unidos publicamente se recusa a dialogar, mas com o qual estaria tendo algum tipo de diálogo às escondidas? Até agora, pelo menos, não há nada parecido.

Mas tudo isso já é suficientemente constrangedor.

Considere as revelações sobre o Golfo Pérsico. Todos acreditavam que muitos líderes árabes queriam a contenção do Irã. Mas ver isso em preto e branco pode tê-los deixado com algumas questões domésticas difíceis para responder.

A opinião pública em muitos países árabes tem mais simpatia com os iranianos que seus líderes.

Mas isso, porém, é apenas uma pequena parte das histórias que ainda devem ser divulgadas.

É hora de os diplomatas americanos apertarem os cintos e se prepararem para um caminho acidentado pela frente.

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