Iraniana acusada de homicídio pode ser executada nesta quarta-feira

Shahla Jahed
Image caption Shahla Jahed está presa há nove anos e passou vários períodos na solitária

O governo de Teerã pode executar nesta quarta-feira a iraniana Shahla Jahed, acusada de matar a mulher de seu amante, um famoso jogador de futebol do país. O alerta foi feito pela ONG Anistia Internacional, que recebeu a informação do advogado de Jahed.

Presa há nove anos, a iraniana foi acusada de matar a facadas Laleh Saharkhizan, esposa de Naser Mohammadkhani, estrela do futebol que alcançou fama nos anos 80 e 90. Sua condenação foi baseada em uma suposta confissão, que ela depois disse ser falsa durante um julgamento público.

Seu caso ganhou ainda mais notoriedade após o apelo internacional contra o apedrejamento de Sakineh Ashtiani, acusada de trair e matar seu marido.

Em entrevista à BBC Brasil, a especialista em Irã da Anistia Internacional, Ann Harrison, disse que Teerã deve suspender imediatamente a execução de Jahed e afirmou que uma pressão brasileira, como aconteceu no caso de Ashtiani, seria bem-vinda.

“Acreditamos que ela foi torturada na prisão de Evin, onde sabemos que as condições são sempre de muita hostilidade, e, assim, forçada a confessar”, disse Harrison. “Não é justo que ela pague com a própria vida. Por isso, quanto mais pressão para impedir esse abuso contra os direitos humanos, melhor.”

“A participação do presidente Lula seria importante para convencer as pessoas que têm poder de cancelar a execução”, disse a especialista em referência ao chefe do Judiciário, o aiatolá Larijani, ou aos parentes da vítima.

Harrison explicou que há chances de a execução – provavelmente por enforcamento – ser cancelada, já que essa situação já ocorreu antes. “O sistema legal iraniano vê esse tipo de crime como uma ofensa pessoal. Então, pode haver o perdão, especialmente se os familiares receberem dinheiro”, afirmou a ativista.

“No entanto, eles precisam estar presentes no local da execução para autorizar o cancelamento da pena.”

‘Esposa temporária’

Jahed era considerada uma “esposa temporária” do jogador. Autorizado pela lei iraniana, um casamento temporário pode durar de alguns dias a alguns anos, desde que o marido arque com as despesas da mulher. A união pode, em seguida, ser anulada ou renovada.

Críticos do regime qualificam o casamento temporário como uma forma de “prostituição legalizada”

No Irã, homens podem ter até quatro esposas permanentes e quantas temporárias desejarem. Já as mulheres podem se casar apenas com um homem.

Após ser presa, Jahed passou um ano se recusando a falar com as autoridades. Várias vezes durante esse período ela foi mantida na solitária.

Na época, Mohammadkhani também chegou a ser preso por cumplicidade – já que estava na Alemanha no dia do crime –, mas foi liberado após autoridades afirmarem que Jahed havia confessado ter cometido o crime sozinha.

Quando a iraniana resolveu falar, ela fez um protesto durante seu julgamento, que foi aberto ao público: “Se querem me matar, vão em frente. Se me mandarem de volta (à prisão), vou confessar não apenas a morte de Saharkhizan, mas também a de pessoas que foram mortas por outros.”

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