Documento revela temor de EUA e Grã-Bretanha com armas nucleares do Paquistão

AP
Image caption Míssil paquistanês exibido em parada militar em Islamabad: preocupação

Diplomatas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha disseram temer que material nuclear do Paquistão caísse nas mãos de terroristas, afirma mais um documento da série que vem sendo vazada pelo site Wikileaks. A mensagem, trocada entre representações diplomáticas dos dois países, adverte que o Paquistão está aumentando rapidamente seu estoque nuclear, a despeito da crescente instabilidade do país.

O documento expressa ainda o ceticismo de diplomatas americanos em relação à capacidade do Paquistão de cortar seus vínculos com extremistas islâmicos.

No documento, o alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores britânico Mariot Leslie diz a diplomatas dos EUA, em setembro de 2009, que a Grã-Bretanha tem "profundas preocupações com a segurança das armas nucleares do Paquistão".

Em outro documento emitido sete meses antes, a então embaixadora americana no Paquistão, Anne Patterson, dizia a Washington: "Nossa principal preocupação não é a de que um militante roube uma arma completa, mas a chance de alguém que trabalhe em alguma instalação do governo paquistanês contrabandear aos poucos material suficiente para a construção de uma arma".

O Paquistão rejeitou as críticas feitas nas mensagens. O alto-comissário paquistanês para a Grã-Bretanha, Wajid Shamsul Hasan, disse à BBC que o material nuclear do país tem "sistema de controle e comando infalíveis".

"Nós sempre falamos a eles, diretamente, que (as armas nucleares) estão em mãos seguras, eles não precisam se preocupar a respeito e nós vamos protegê-las", afirmou Hasan em uma entrevista.

"Elas (as armas nucleares) são os bens mais preciosos que temos e não vamos permitir que nada caia nas mãos de aventureiros."

O alto-comissário paquistanês para a Grã-Bretanha afirmou ainda que, desde que o presidente Asif Ali Zardari assumiu o cargo, há 27 meses, "nós temos um sistema de controle e comando infalível para cuidar do arsenal nuclear".

Para Hasan, os documentos vazados pelo site do Wikileaks foram prejudiciais ao país.

"Você está lidando com o relacionamento entre Estados. Você construiu (este relacionamento) durante anos e, de repente, alguma coisa é divulgada, é secreto, confidencial e prejudica o relacionamento", disse.

O representante do Paquistão disse que seu país não vai aceitar nenhuma ajuda dos Estados Unidos no setor de segurança nuclear, "pois somos uma nação soberana".

'Sem chance'

Nos documentos vazados, a então embaixadora americana no Paquistão, Anne Patterson, diz ainda que "não há chance" de o Paquistão "abandonar o apoio a grupos (militantes)".

Patterson acrescentou que o governo paquistanês via os grupos militantes como "uma parte importante de seu aparato de segurança nacional contra a Índia".

Os Estados Unidos também se mostraram preocupados com a tensão entre o Exército paquistanês e o presidente Zardari.

O material vazado, datado de março de 2009, afirma que o chefe do Exército, o general Ashfaq Parvez Kayani pode, "mesmo relutantemente", pressionar o presidente Zardari para que ele renuncie, apesar de o general "não confiar (no líder de oposição) Nawaz (Sharif)".

O correspondente da BBC em Islamabad Aleem Maqbool afirmou que autoridades militares do país acreditam que a revelação de documentos pelo site Wikileaks está sendo usada para pressionar o Paquistão a abandonar seu programa nuclear.

Mas, segundo o correspondente, muitos analistas compartilham dos temores americanos e britânicos, particularmente se for levado em conta que o programa nuclear do Paquistão emprega dezenas de milhares de pessoas.

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