Perfil: Escândalos marcam trajetória do fundador do WikiLeaks

Fundador do WikiLeaks foi detido em Londres
Image caption Assange causou polêmica com dados sigilosos divulgados em seu site

Para seus fãs, o fundador do site de vazamento de informações WikiLeaks, Julian Assange, é um valente defensor da verdade.

Seus críticos, no entanto, dizem que ele é um homem com sede por atenção, que está colocando vidas em perigo ao disponibilizar informações confidenciais para o grande público.

Preso havia nove dias na Grã-Bretanha por acusações de crimes sexuais na Suécia, ele foi solto sob fiança nesta quinta-feira e alegou ser vítima de perseguição política por conta dos documentos vazados no WikiLeaks.

A libertação havia sido constestada por um recurso judicial na terça, que acabou recusado pela Justiça britânica.

Os que trabalham com Assange o descrevem como intenso, determinado e muito inteligente, com um talento excepcional para desvendar códigos de computador.

Ele costuma trabalhar em constante movimento, administrando o WikiLeaks de acomodações temporárias em diferentes pontos do mundo.

Consegue ficar longos períodos sem comer, concentrado no trabalho e dormindo pouquíssimas horas - segundo Raffi Khatchadourian, um jornalista da revista New Yorker que passou várias semanas viajando com Assange.

"Ele cria essa atmosfera em torno dele, em que as pessoas que estão próximas querem cuidar dele para ajudá-lo a seguir em frente", diz Khatchadourian. "Eu diria que provavelmente isso tem a ver com seu carisma."

Julian Assange evita falar sobre seu passado, mas algumas informações circulam pela imprensa. Ele nasceu em Townsville (Queensland), no norte da Austrália, em 1971, e teve uma infância nômade enquanto os pais dirigiam uma companhia de teatro itinerante.

Aos 18 anos, Assange teve um filho. Depois do nascimento, houve brigas pela custódia da criança.

Flagrante

O surgimento da internet deu a Assange a oportunidade de colocar em prática seu talento matemático, embora isso também tenha gerado problemas. Em 1995, ele foi acusado, ao lado de um amigo, de várias atividades envolvendo a violação de dados em computadores.

Embora o grupo de hackers fosse esperto o suficiente para identificar os rastros deixados pelos detetives que estavam no seu encalço, Assange acabou sendo pego e se declarou culpado.

Ele recebeu uma multa de milhares de dólares australianos - evitando uma sentença de prisão, sob a condição de que não voltaria a cometer o crime.

Assange passou três anos trabalhando com uma acadêmica, Suelette Dreyfus, que estava pesquisando o lado subsersivo que emergia na internet. Juntos, os dois escreveram o livro Underground, que se tornou um best-seller entre internautas.

Dreyfus descreveu Assange como um "pesquisador muito talentoso", com "grande interesse no conceito de ética, conceitos de justiça, o que governos deveriam e não deveriam fazer".

Depois disso, seguiu-se um curso em física e matemática na Universidade de Melbourne, onde Assange se tornou um importante membro da comunidade de matemáticos, inventando um elaborado quebra-cabeças matemático - algo que, segundo contemporâneos, ele fazia muito bem.

Esforço

Em 2006, aliado a um grupo de pessoas da comunidade de internautas, Assange fundou o WikiLeaks, criando uma espécie de "caixa postal" para delatores.

"Para proteger a segurança de nossas fontes, tivemos de espalhar nossos ativos, criptografar tudo e transferir telecomunicações e pessoal para outras partes do mundo para ativar leis de proteção em diferentes jurisdições nacionais", disse Assange à BBC em fevereiro.

"Ficamos bons nisso e nunca perdemos um caso, ou fonte, mas não podemos esperar que todos façam o esforço extraordinário que fazemos", acrescentou.

Daniel Schmitt, cofundador do site, descreve Assange como "uma das poucas pessoas que realmente querem fazer uma reforma positiva no mundo", alguém "que está disposto a fazer algo radical, a correr o risco de cometer erros, simplesmente pelo prazer de trabalhar no que acredita".

O WikiLeaks publicou material sobre vários países, mas chegou às manchetes em abril, quando divulgou um vídeo feito por um helicóptero americano no Iraque em 2007.

As imagens mostravam um helicóptero Apache americano matando pelo menos 12 pessoas - incluindo dois jornalistas da agência de notícias Reuters - durante um ataque em Bagdá. O vídeo foi reproduzido pela imprensa internacional e provocou reações no mundo todo.

Assange emergiu sob os holofotes da mídia para promover e defender o vídeo, assim como a divulgação em massa, em julho e em outubro, de documentos militares americanos relativos às guerras no Afeganistão e no Iraque.

Mistério

Segundo jornalistas, no entanto, a figura de Assange e os detalhes sobre o funcionamento do seu site seguem envoltos em mistério.

Em mais uma reviravolta em sua polêmica trajetória, Julian Assange se tornou o alvo de um mandado de prisão internacional emitido pela Justiça sueca por supostas alegações de estupro.

As denúncias surgiram após ele ter visitado a Suécia, em agosto, e se referem a dois encontros sexuais que ele teria tido com duas mulheres. Segundo o advogado de Assange, os encontros teriam sido consensuais.

Assange diz que as acusações são parte de uma campanha de calúnias contra ele e seu site. Uma investigação inicial, conduzida em agosto, foi abandonada após apenas um dia, mas o caso foi reaberto em setembro.

No dia 24 de novembro, um tribunal sueco rejeitou o recurso de Assange contra a ordem de prisão. Atualmente, o caso está sob consideração da Suprema Corte do país.

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