Frio nas ruas: em Moscou, alcoolismo agrava situação dos sem-teto

Svetlana mora nas ruas de Moscou desde 1992
Image caption Na rua desde 1992, Svetlana arranjou emprego como varredora

Não se sabe ao certo quantas pessoas vivem nas ruas de Moscou, mas um censo recente as calculou em 6.067, com idade média de 40 anos.

O alcoolismo tem influência significativa tanto como causa do problema quanto como um empecilho para que as pessoas o deixem para trás.

Svetlana tem morado nas ruas de Moscou desde 1992 e, como muitos dos sem-teto da cidade, chegou à capital russa em busca de trabalho.

“Não vou mentir: eu bebo e fumo. Mas agora encontrei um emprego para varrer as ruas e tirar a neve. O pagamento é suficiente para comprar alguns pães.”

Das prisões às ruas

Muitos outros moradores de rua de Moscou acabaram de sair da prisão. Segundo uma antiga lei soviética que vigorou até 1995, prisioneiros perdiam o direito de viver em propriedades que lhes haviam sido concedidas.

Outra grande causa para o problema são conflitos familiares. Farid, 51 anos, mora na rua desde 2008. Ele passa a maior parte dos dias na estação Paveletskaya, no centro de Moscou.

“Terminei com a minha mulher, e o filho dela não queria que vivesse com eles. Estávamos morando num quarto num flat compartilhado – tive que sair”, diz.

Ao contrário de muitos moradores de rua de Moscou, Farid tem os documentos de que precisa para trabalhar. Ele diz ter procurado empregos na cidade, mas que sua saúde impediu que os aceitasse.

“Tentei encontrar trabalho como limpador de rua, mas você ganha quase nada e tem de trabalhar por 12 horas sem nenhum dia livre. Eles nem sempre lhe dão um lugar para morar – minha saúde não é boa o bastante para isso”, afirma.

Condições insalubres

Um grande problema para os moradores de rua em Moscou é a falta de banheiros públicos.

Segundo Andrei Pentyukhov, funcionário do departamento de bem-estar social de Moscou, muitos dos moradores de rua da cidade têm condições de saúde piores do que os de cidades de países ricos.

“Eles com frequência têm piolhos e infecções de pele, e se vestem com roupas imundas”, diz Pentyukhov.

Há três centros em Moscou onde moradores de rua podem se lavar e se tratar de infecções e piolhos, assim como obter roupas novas.

Mas Elena Kovalenko, economista que escreveu um livro sobre a população sem-teto de Moscou, diz que não é suficiente.

“Só um desses centros fica no centro da cidade. Os outros são difíceis de chegar – você tem que pegar o metrô, depois um ônibus e depois fazer uma longa caminhada. Para pessoas sem-teto, essa viagem não é realista”, diz.

Ela acredita que a boa higiene é essencial para que moradores de rua se sintam motivados a mudar de vida.

Image caption Para especialista, governo falha em religar sem-teto à sociedade

Programa governamental

Em 2009, o governo de Moscou lançou o programa “Patrulha social”. Ele é formado por dez unidades móveis com uma equipe médica e assistentes sociais, que rodam a cidade atrás de moradores de rua.

Segundo Andrei Pentyukhov, o programa visa levar os sem-teto aos oito centros na cidade onde eles podem morar temporariamente e são ajudados a arranjar um trabalho e um local de moradia permanente.

Mas a especialista Elena Kovalenko diz que, embora permitam que as pessoas sobrevivam, os centros falham em reconectar os moradores de rua com a sociedade.

Noites frias

Na estação Paveletskaya, Farid está preocupado com as noites do inverno de Moscou.

“Tento dormir em corredores em condomínios de flats, mas você tem que encontrar os que não estão trancados. Não durmo muito”, afirma.

Ele diz que um dia pretende deixar as ruas. “Não sei o que fazer. A coisa principal é passar pelo período de festas, quando tudo estará fechado. Mas um dia eu pretendo me casar de novo.”

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