Berlusconi e Flaubert

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Eu estava comentando com meu botão os recentes movimentos de protestos aqui no Reino Unido, principalmente em Londres, e os de terça-feira na Itália, com seu foco principal em Roma.

- O que é a vida – disse eu para meu botão.

- É isso aí, companheiro – obtemperou ele, pois o que não me abandonou, coitado, é de “obtemperar” e não “responder”.

Neste ponto, vejo-me obrigado a fazer uma pequena pausa para explicar o porquê de meu diálogo com um único botão e não os habituais, conforme se diz, “meus botões”.

É que os outros dois se mandaram. Acham meu papo uma chatice. No que concordam muitos de meus amigos e até mesmo alguns inimigos. Eu mesmo, às vezes, não me aguento. Dá-me uma bruta vontade de baixar o cacete em mim mesmo.

No que chego onde queria chegar e onde estava no meu diálogo com meu botão (chamo-o de “major”, pois sou dado a ironias). Cair de pau.

- Veja você, Major – prossegui em meu solilóquio no banco do metrô –. Diferença cultural é isso aí. Por isso que nunca fiz fé na tal de unificação europeia com seus euros e sua burocracia desenfreada. É nisso que dá.

Aqui no Reino Unido, foi só aumentarem o custo dos ensinos universitários para a garotada ir às ruas e manifestar em peso seu desagrado. Sim, é verdade. Desnecessário me lembrar.

Alguns eternos descontentes, mais chegados a uma balbúrdia, exageraram e partiram para a grossura. Uns anarquistas, cá entre nós dois.

Se a polícia entrou num ou noutro com mais feeling, e se para contê-los adotou uma prática controvertida, a chamada “kettling”, ou seja, “chaleirar”, no sentido de como, numa chaleira, é contida a pressão, bons motivos não faltaram.

Basta ver o que nos mostrou a televisão e o inquérito que prossegue.

O inquérito, depois do peixe com fritas e a balbúrdia em jogo de futebol, é a terceira maior instituição britânica.

Mas divago, para variar. Permita-me, já que os aeroportos estão abertos, dar uma chegadinha à Itália, mais precisamente Roma…

- Tudo bem. O senhor é que manda – obtemperou de novo meu botão, conformado.

- … onde na terça-feira, dia 14, o primeiro-ministro Sílvio Mascarpone, digo, Berlusconi…

- Há, há, há – essa foi boa.

- … obteve uma maioria de votos no Parlamento, podendo assim, mediante a diferença de uns míseros 3 votos, no Congresso, continuar no Poder.

O que se viu então foi praticamente inédito.

Os italianos, acostumados à já lendária capacidade de sobrevivência de Berlusconi, com seus ridículos e patifarias – e estou citando fontes fidedignas --, deixaram de lado por uma vez na vida seu cinismo e o espírito de “deixa para lá” e foram às ruas criar caso para valer.

Botaram para quebrar. E como quebraram! Vitrinas e caras. Tacaram fogo em carro. Apedrejaram seus semelhantes fardados de policiais. Mandaram brasa.

Como resposta, não houve tentativa de “kettling”, de contenção. Foi pau puro. Gás lacrimogêneo, mangueira d´água, cacetada na cabeça ou onde desse pé e mão (pé e mão direita, se possível). Não teve por onde.

Comigo é panino, panino, gorgonzola, gorgonzola, para adaptar um bordão popular nosso. Quer saber de uma coisa, Major?

- Não faço questão. Mas sei que vou acabar sabendo. Manda.

- É preciso parar de “chaleirar” estudante britânico. “Chaleirar”, em seu sentido original, o de “bajular”, conforme nossos bons dicionários.

O negócio é mais embaixo, em cima e dos lados. Para eles se darem conta da sorte de não terem de aturar um Berlusconi.

Vale a pena estudar pagando um pouco mais, ou mesmo muito mais, do que ter que aguentar Berlusconi mesmo que apenas em página de jornal ou programa de TV, ambos aliás de sua propriedade. Que você acha, Major?

- Eu acho que nós deveríamos parar de frescura e reler Madame Bovary, de Flaubert. Afinal acaba de ser lançada a 20ª. tradução em inglês dessa legítima obra-prima.

- Major.

- Diga.

- Te fecha, tá?