Espanhois deixam o país por causa da crise

Ana Uriarte
Image caption Ana Uriarte vai para os Estados Unidos dar aulas de espanhol

Dados oficiais do governo espanhol mostram que o número de cidadãos do país vivendo no exterior vem aumentando consideravelmente desde o início da crise financeira internacional.

Entre novembro de 2009 e novembro de 2010 (último dado disponível), 100 mil espanhois deixaram o país, um aumento de 56% em relação ao período anterior.

Os números do Censo Eleitoral de Espanhois Residentes no Exterior revelam que cerca de 43 mil cidadãos decidiram tentar a sorte em outro país em 2008, enquanto 69 mil decidiram fazer o mesmo em 2009.

Alguns dos viajantes espanhois tem como destino a América Latina. A cada mês, a Argentina recebe algo entre 1 mil e 1,2 mil cidadãos da Espanha.

Muitos deles seriam pessoas com dupla nacionalidade, que teriam deixado a Argentina depois da crise de 2001 e agora estariam voltando para casa por conta da crise na Espanha.

O aumento no fluxo de espanhois para outros países acontece no momento em que a imigração de estrangeiros para a Espanha está em queda.

Jovens qualificados

Image caption A antropóloga María Fernanda Delgado acha que é cedo para falar de êxodo

Os emigrantes espanhois costumam ser jovens qualificados, entre 25 e 35 anos, com formação universitária e domínio de outro idioma, mas que não conseguem emprego na Espanha, segundo a consultoria de recursos humanos Adecco.

Os destinos favoritos desses espanhois seriam Estados Unidos, América Latina, Alemanha, Grã-Bretanha e Ásia.

Entre os mais de 4 milhões de desempregados na Espanha, a população jovem é a mais afetada. Quatro em cada dez não têm trabalho fixo, segundo o Instituto Nacional de Estatística.

"É como se o próprio mercado estivesse te empurrando para fora do país. Sou psicóloga e jornalista e durante toda minha vida só consegui trabalhos temporários e mal remunerados. Certamente, somos muitos profissionais (qualificados), mas de qualquer jeito parece que o conhecimento não é valorizado", disse à BBC Andrea Palacios, que começou os trâmites legais para emigrar para Quebec, no Canadá.

"Sei que vou passar a metade do ano fechada em casa por causa do frio, mas serei independente, terei um trabalho de que eu gosto."

'Via de mão dupla'

Apesar das mudanças nas tendências, a corrente migratória na Espanha continua sendo de mão dupla.

"Continuam chegando imigrantes. Apesar da crise, a Espanha é um país atraente em muitos aspectos: qualidade de vida, seguridade social. Os fluxos migratórios de ida e volta sempre existiram. As pessoas se mudam para estudar ou trabalhar. Talvez seja um pouco prematura falar de êxodo", disse a antropóloga María Fernanda Delgado.

"É inegável que o mundo está mudando depressa, incluindo o conceito de migração. Certamente as novas gerações vão migrar profissionalmente várias vezes em sua vida."

Trabalhar sem salário

Segundo a Adecco, quem está decidindo fazer as malas agora são os pesquisadores, médicos, biólogos, engenheiros, pessoas que ainda não têm família e que querem se desenvolver profissionalmente.

Uma delas é a comunicadora social Ana Uriarte, que em três meses parte para os Estados Unidos para trabalhar com professora de espanhol.

"À crise econômica se soma a crise das carreiras na área de ciências humanas. O trabalho vem como uma atividade voluntária, sem salário. Nunca quis ir embora, gosto da Espanha. Mas não posso seguir vivendo da ajuda dos meus pais, que também passam dificuldades", disse Uriarte.

O octogenário Gonzalo Díez emigrou para a Suíça quando era adolescente e voltou à Espanha para se aposentar.

"Tivemos que ir. Estávamos na Espanha do pós-guerra, onde realmente havia necessidade, fome. Agora, as pessoas não passam fome na Espanha, mas estão acostumadas a um nível de vida. O que não podemos fazer é deixar que o barco afunde."

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