Os romances de Vera Fischer

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Aos 59 anos, a consagrada estrela de nossas telas, pequenas e grandes, exibe uma invejável forma física e espiritual.

Sorrindo muito, a exibir os dentes perfeitos de pérola, ela declara à reportagem, “Não sou, nunca desejei ser, apenas uma bela mulher. Dessas de enlouquecerem homens, mulheres e crianças. Há dentro de mim – sempre houve – um impulso criativo que não se limita à criação, por mais perfeita que seja, de personagens de telenovela, peças teatrais ditas sérias ou pornochanchadas. Quem me conhece, sabe disso. Mas sou uma mulher ambiciosa. Super-ambiciosa. Criar para mim é mais do que dar alpiste ao pintassilgo ou mudar as fraldas do bebê. Esse impulso é que me levou a fazer do ano entrante, 2012, o ano em que deixarei o país, ou pelo menos sua porção alfabetizada, mais uma vez de boca aberta e queixo caído. Mais do que quando fui miss isso ou miss aquilo outro, mais do que quando fui a primeira celebridade a posar inteiramente nua para revistas masculinas, mais do quando abafei no mundo da narrativa telenovelística. Se eu estiver falando muito rápido para você tomar suas notinhas, avise, viu, bem?”

Nas “notinhas”, lá está: “Vera Fischer acomoda-se na poltrona como se delicadamente colocando rosas brancas num vaso. Sem um pingo de pintura, as ondas de seu cabelo são seu único ornamento. Sua compleição e cor de pele torna o tom dourado-vivo dos cabelos como se displicentemente jogado sobre os ombros perfeitos ainda mais brilhante. Vera Fischer não está me dando uma entrevista. Na verdade, ela resplandece para meu mini-gravador. Seus lábios parecem viver semi-abertos, como se estivesse sempre à beira de revelar segredos seus, nossos, da vida. Sua luz interior a tudo ilumina, sua voz distribui melodias por todo aposento em que esteja. Vera tem o dom de fazer parecer um privilégio perto dela estar quem quer que seja. Ela prossegue na beleza total de sua maturidade:"

“Tenho orgulho de minha idade. Tenho orgulho de tudo que fiz. Tenho orgulho de todos a que amei. Sou, sempre fui, totalmente mulher e nada mais do que mulher. Sim, é verdade, com o tempo vão rareando os bons papéis na televisão. E não acontece o mesmo com as estrelas de Hollywood? Há que se aprofundar a marca, essa cicatriz em chamas, que deixamos na face gorda, e por muitas vezes tola, do mundo. Por este motivo é que, um belo dia, de tardinha, há cerca de um ano, tomei de um lápis, muito papel --, aliás o reverso das páginas dos roteiros da novelas de que participei --, e comecei a escrever o primeiro de minha série de 10 romances escritos e, espero, lidos, com a mesma garra e dedicação com que os, por assim dizer, bordei. Muitos, acadêmicos imortais inclusive, estranharão alguém, ainda mais mulher, e mulher bonita, se sentar ou se enrolar numa poltrona ou sofá e, dia após dia, com feroz diligência, escrever, escrever e escrever. Não é mole não, minha filha, se me desculpa a intimidade vernacular. Dei tudo de mim. E não vá fazer graça com essa frase, viu, boneca? Escrevi 10 romances de enfiada (olha...), à mão e à lápis. Não era a primeira vez que eu cismara e fora em frente. Há uns anos, pintei 200 quadros em um só ano também. Mas não à lápis nem crayon, né! Ha, ha, ha! Escrevo à lapis porque gosto de palavras saindo de mim. Sou livre, sempre fui, o que sai de mim, ou coisa semelhante, é problema, se problema for, só meu.”

Vera Fischer para, se levanta, vai até a janela, olha profundamente para a paisagem lá fora, como se buscasse algo – a felicidade, talvez? -- volta e recomeça seu monólogo fascinante.

“Descrições longas não é comigo. Livro grosso só para os aficionados de literatura. Não vou adiantar para você meus temas. Serão 10 livros com muita gente rica. Nada tenho contra os pobres, coitados, só que entendo mais de ricos. Uma das lições que aprendi com minha escritora favorita desde os 13 anos, Marguerite Yourcenar. Digo apenas algumas palavras dos temas que nos 10 romances podem ser encontradas: sexo, é claro, bastante sexo, septicemia, aborto, morte, falência múltipla dos órgãos, essa em 6 linhas e meia. Ah! Quer uma imagem de minha autoria, pois tome lá: Seu coração parecia estar tão apertadoque mal conseguia respirar. Outrazinha? As horas se arrastavam lentamente. Elas são apenas para aguçar a curiosidade dos leitores.”

Despedimo-nos cordialmente. Admiro cada vez mais essa mulher. Em primeira mão, adianto, com exclusividade, espero, que o primeiro livro leva o nome de Serena e encontra-se em processo de edição. Serão 244 páginas muito queridas.