UPPs abrem caminho para economia formal em favelas do Rio

Propaganda de pacote da Sky para favela com UPP (foto: Júlia Dias Carneiro / BBC Brasil)
Image caption Sky lançou pacote especial de assinatura para favelas pacificadas

A instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) em favelas do Rio de Janeiro, que completou dois anos, tem sido acompanhada de medidas de formalização da economia local.

Serviços como água, luz e TV a cabo vêm sendo regularizados, e empresas têm abandonado a informalidade. Segundo o governo estadual, as UPPs têm levado ainda à qualificação da mão-de-obra local e ao ingresso dos moradores no mercado de trabalho formal.

"Na Cidade de Deus, só em um fim de semana 270 empresas foram formalizadas. Vêm desde o dono da birosca ao cara que tem uma vendinha em casa ou a mulher do cabeleireiro", diz Silvia Ramos, subsecretária de Ações Integradas no Território e coordenadora das ações do programa UPP Social.

Projetos

Segundo dados do governo, um projeto, batizado de Empresa Bacana, formalizou desde agosto mais de mil empresas na Cidade de Deus, no Morro do Borel, no Morro da Providência e no Complexo do Alemão (este último só terá UPP a partir do segundo semestre de 2011, mas está ocupado pelo Estado desde o fim de novembro).

Em outra iniciativa, uma parceria da UPP com o Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio vem recrutando mão-de-obra para estabelecimentos do setor nas favelas com UPPs. Segundo o SindRio, seus representantes vão às comunidades, cadastram os currículos dos interessados e encaminham os candidatos para entrevistas de emprego.

Desde novembro, o projeto passou por quatro favelas e cadastrou o currículo de mais de 308 pessoas, encaminhando 158 delas para entrevistas. Antes, elas assistem a uma palestra com dicas sobre como ser bem-sucedido na área.

"Damos dicas básicas de como se vestir, como se comportar, que atitude ter", diz Kátia Watts, coordenadora de comunicação do SindRio. "Como conhecemos a expectativa dos empregadores, passamos alguns 'truques' para que as pessoas consigam dar esse salto."

Image caption Projeto Empresa Bacana deu atendimento a microempresários

No projeto Empresa Bacana, os microempresários são atendidos por consultores que cuidam de sua papelada e dão dicas para a expansão dos negócios.

A partir da regularização da empresa, eles passam a ter CNPJ, alvará, acesso a créditos e podem contratar funcionários com carteira assinada. O projeto é uma parceria entre Prefeitura do Rio, Sebrae e Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis (Sescon/RJ).

Pacote exclusivo

O aquecimento da economia interna das comunidades com UPPs é reforçado pela gradual entrada de grandes empresas. Após a recente expulsão do tráfico, o Complexo do Alemão deve ganhar filiais dos bancos Bradesco, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil.

Na semana após a operação do Alemão, a rápida entrada de vendedores de operadoras de telefonia e TV a cabo, oferecendo aos moradores serviços de TV por assinatura, sugere que a retirada do comando do tráfico de drogas pode ter um efeito imediato na economia local.

De olho no novo mercado, a Sky lançou em setembro um plano exclusivo para as favelas pacificadas: o "Sky UPP" tem mensalidade de R$ 44,90 e oferece 89 canais. A empresa não divulga números, mas o diretor de vendas, Sérgio Ribeiro, fala em "ótimos resultados".

"Antes da parceria, tínhamos uma pequena base de clientes nessas comunidades. Agora, em um mês, chegamos a ver o ritmo de vendas crescer cerca de dez vezes", conta. "Para a SKY, é uma oportunidade de atingir consumidores que utilizavam serviços ilegais e agora podem optar por sair da ilegalidade."

Antes da entrada das TVs pela via oficial, a maioria dos moradores das comunidades recorria ao chamado "gatonet", a TV a cabo clandestina. Os "gatos" também valiam para a luz e para a água, e agora estão sendo gradualmente erradicados.

A Light, por meio do programa Comunidade Eficiente, já refez sua rede em cinco favelas com UPPs, e até o fim do mês inaugura a nova rede de outras duas. No processo, lâmpadas incandescentes são trocadas pelas econômicas, geladeiras mais antigas são substituídas por novas e todos os domicílios passam a ter relógios para medir o consumo de energia elétrica.

No Santa Marta, antes da UPP, eram cerca de 80 domicílios cadastrados. Hoje, são 1,7 mil, segundo o superintendente de Relacionamento com as Comunidades, Mario Guilherme Romano.

"Com o advento das UPPs, tivemos uma oportunidade imensa. Com o tráfico, não havia o que fazer. Fomos ameaçados várias vezes", afirma.

Esgoto

A Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) vem regularizando sua rede em 111 favelas por meio do programa Água para Todos. De acordo com o presidente Wagner Victer, a presença das UPPs facilita o recadastramento dos moradores e a melhoria do abastecimento.

"A pacificação favorece que os moradores caminhem para a formalidade", diz. "Mesmo nas favelas, a nossa cobertura era de quase 100%. Mas as pessoas não recebiam água de maneira rotineira e os ramais levavam a perdas de água extremamente elevadas."

Para Silvia Ramos, esse processo de regularização de serviços e atividades econômicas é essencial para que as favelas se tornem "bairros integrados à vida normal da cidade".

"Para isso, é muito importante que a atividade empresarial e comercial se multiplique. As favelas não podem continuar sendo trabalhadas como espaços da carência. Queremos pensar numa favela como um espaço que pode dar lucro", afirma a subsecretária do governo do Rio.

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