Companhia

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

O sistema de saúde nacional da Grã-Bretanha, entre seus serviços livres de críticas rigorosas, oferece , sempre grátis, é claro, algo dos mais simpáticos: um ou uma carer, ou seja, alguém que cuide, que faça principalmente companhia aos velhinhos com 75 anos ou mais.

Funciona melhor ou pior dependendo da parte do país em que se está. Quase um jogo de sorte. Ou azar.

Sempre simpatizei com as pessoas que se oferecem para serem carers e nunca me ocoreu perguntar se ganham alguma coisa pelas horas que passam cuidando e zelando pelos aqui chamados OAPs (old age pensioners), ou seja, velhinhos e velhinhas aposentados. Só aguardando. E, sabemos, aguardando alguém que não Papai Noel.

Na casa em que moro há mais de 30 anos, datada do período final da época vitoriana, somos cinco flats, ou apartamentos. Sou o residente veterano. Mas não o mais velho.

Moro no que chamaríamos de segundo andar, mas que para eles é o terceiro. No flat térreo, há alguns anos, mora, sozinho, um velho que eu acreditava indiano e que só agora vim a descobrir que é paquistanês. Sozinho.

O Paquistão, entre suas complicadas fronteiras, tem mais de 162 milhões de habitantes. Algumas centenas de milhares vieram desfrutar da diáspora britânica.

Meu vizinho, repito, vive sozinho. Sempre viveu, ao menos desde que para cá se mudou.

Não sou de me dar com as pessoas. Nada sei dele. Nada sabe ele de mim. Cumprimentamo-nos com muxoxos estrangeiros no saguão de entrada, quando vamos conferir a correspondência.

Vez por outra, na rua. Ele com seu jornal debaixo do braço e um saco plástico por certo cheio de exotismos culturais. Eu com os meus: sucos e a comida para a gata.

Mais de uma vez dei com uma senhora, em tudo britânica, entrando ou saindo de seu apartamento.

Ora, muito bem, meu espírito maroto exclamou baixinho, só para eu ouvir. E o vizinho esse me parece alguns anos mais velho do que eu. Vive-se apenas uma vez, comentou outro espírito mais compreensivo, que também não me larga.

Na segunda-feira desta semana de Natal, a vizinha de cima me procurou (com ela tenho mais papo: alô, tudo bem, como é que vai) e, da porta – ela jamais pensaria em pedir para entrar --, me expôs uma situação.

O senhor Patel, do térreo, tem uma carer que vem todos os dias e fica com ele das 10 da manhã às 4 da tarde. Acontece que, com essa nevasca e suas complicações, ela não poderia vir na quarta-feira, dia 22, será que eu... Notara que eu não saíra de casa há umas duas semanas para cá. Sabia que era apenas uma gripe mais forte (minha mulher bate papo com vizinhos), e, com a maior delicadeza, perguntou se eu me incomodaria de passar as 6 horas da quarta com mister Patel.

Eu disse que teria o maior prazer. A vizinha de cima me deu as coordenadas. Ele tinha 81 anos, era paquistanês, viúvo há mais de 15 anos, bonérrima pessoa -- e coisa e tal. Tudo bem, disse eu. quase que com um pequeno ho, ho, ho, de Papai Noel inglês enfeitando minha anuência. Pois nada mais anuente do que ficar quase que um dia inteiro com um paquistanês. Ainda mais, desconhecido. Só desejei que ele também estivesse tão ansioso quanto eu.

Resumindo: passei as 6 horas, de 10 da manhã às 4 da tarde, com o senhor Patel.

Ele numa poltrona quase tão bege quanto sua pele, eu numa verde como já foram meus olhos. Serviu-me chá com biscoitos por volta de 1 da tarde.

O papo foi um horror. Ele não gostava de livro, cinema ou televisão. Tinha apenas saudades de Islamabad e dos amigos e parentes que ficaram para trás ou se foram de vez. Não demonstrou a menor curiosidade pelo meu país ou cidade de origem, embora eu o tenha feito falar mais de 10 palavras sobre toda a história do Paquistão, que não é tão antiga assim, começou em 1947. Falou muito mal dos ingleses. “Uma gente terrível. Mandona. Todos com o rei ou a rainha na barriga. E isso aqui, a cada dia, vai de mal a pior.”

Esta sua tônica, e sem gim. Algo tímido (afinal esava no papel de zelador), tentei defender. Depois me deu uma coisa e eu também comecei a baixar a lenha. Até onde percebi, só aí foi que ele me aceitou. Passando a falar dos 5 mil cristãos britânicos em sua terra, com suas igrejas anglicanas e suas roupas novas no Natal e a missa nas igrejas lotadas, missas que eles chamam de Bara Din (O Grande Dia) no dia 25.

Não entendi se esse “eles” eram os ingleses expatriados ou os paquistaneses patriados. Tanto fazia. O importante eram as seis horas passarem. Pois passaram. Deus, Alá, seja quem for, é grande.

Voltei para minha gripe e solidão, sem carer, mas com aromas sedutores e imaginários nas narinas das especiarias do país que eu acabara de visitar. Ou que me visitara.

Até hoje, respirando fundo, sinto cheiro de um curry amarelíssimo, açafrão, gengibre. Cominho, pimenta e alecrim.

Espero ter deixado, atrás de mim, em seu flat, como um modelo de tevê da colônia de Calvin Klein, um rastro de feijoada, um aroma de vatapá, uma fragrância de munguzá.

Continuamos, eu e o senhor Patel (nunca soube seu primeiro nome, nem ele o meu), dois velhos mistérios numa velha casa inglesa. Ele, com carer, eu com gata.