Atuação de militar em cidade mexicana divide opiniões

Julian Leyzaola
Image caption Leyzaola foi para Tijuana para liderar a luta contra as drogas

É uma noite fria e as ruas de Tijuana estão desertas quando o policial Villaseñor começa sua patrulha. A arma está à mão. A primeira chamada não demora muito: há relatos de tiros e do roubo de um táxi.

Minutos depois, estamos no local, junto com outros seis carros de polícia. Eles começam a se entranhar pelas ruas e cruzamentos, jogando a luz de suas lanternas em garagens de casas e estacionamentos.

"Essa é a nossa estratégia. Chamamos de bloqueio. Quando há um incidente, nós cercamos a área, tentamos prender os suspeitos", diz Villaseñor.

O Departamento de Polícia Municipal de Tijuana passou por mudanças radicais nos últimos três anos.

Muitos policiais costumavam estar na folha de pagamentos dos cartéis de traficantes de drogas e essa foi uma das razões que fizeram o presidente mexicano Felipe Calderón enviar milhares de soldados para cidades de fronteira como Tijuana.

"Era comum ter comboios armados de grupos do crime organizado se movimentando livremente pelas ruas, dez veículos de uma vez. Os policiais tinham medo de intervir", conta Villaseñor.

Polícia infiltrada

As coisas começaram a mudar quando um novo chefe de polícia foi contratado no fim de 2007.

Julian Leyzaola, um ex-oficial do Exército, se uniu aos militares para enfrentar os cartéis de drogas diretamente.

"Eu comecei a comprar mais armas e munição, muita munição, mas também treinei meus homens em combate urbano", diz ele.

Leyzaola não teve de esperar muito por seu primeiro confronto. Poucas semanas após assumir o cargo, surgiram relatos de que um caminhão blindado havia sido levado do centro da cidade.

"Nós começamos a perseguição e nos aproximamos deles na estrada. Um dos ladrões desceu do veículo. Eles não estavam acostumados a ser parados pela polícia. Eu disse: baixe sua arma. Ele não obedeceu, então atirei nele."

O bandido morto era, na verdade, um policial que também trabalhava para o crime organizado.

"Eu sabia que a polícia estava completamente infiltrada. Policiais trabalhavam um turno de oito horas e depois iam fazer outro turno para o crime organizado, usando as armas da polícia, até mesmo os uniformes", diz Leyzaola.

'Choques elétricos'

Leyzaola começou a fazer uma limpeza sem precedentes da força policial, prendendo hordas de policiais suspeitos de trabalharem para o tráfico e substituindo alguns deles por militares.

Gradualmente, começaram a aparecer sinais de mudança em Tijuana. Os comboios armados dos cartéis sumiram das ruas e as trocas de tiros na cidade pararam.

Mas aí relatos perturbadores começaram a vir à tona sobre os métodos usados pelo chefe de polícia de Tijuana.

Miguel Messina, um veterano com mais de 30 anos de experiência na polícia municipal, foi preso no início do ano passado como parte da limpeza do chefe Leyzaola. Ele foi levado até uma base militar e vendado.

"Eles me amarraram a me colocaram no chão. Eles me pediram para admitir que eu era um membro do crime organizado. Eu não aceitei. Eles me sentaram numa cadeira e começaram a dar choques elétricos nos meus genitais", diz Mesina.

Segundo ele, nessa hora ele conseguia ouvir a voz de Leyzaola na sala.

A filha de Mesina, Blanca, de 26 anos, começou então uma grande campanha pela libertação de seu pai e outros policiais presos.

Image caption A polícia conseguiu fazer grandes apreensões de drogas em Tijuana

Ela acusou Leyzaola de tortura diretamente. Segundo Blanca, foi nesse momento que a pressão sobre ela começou a aumentar.

"Carros de polícia começaram a me seguir. Aí, eventualmente, eu estava voltando do trabalho e uma pick-up bateu no meu carro", diz ela.

"Eu tive que parar num estacionamento. O motorista me seguiu e saiu do carro. Ele veio e colocou uma arma na minha cabeça e disse que se eu não parasse de reclamar, alguém da minha família ia se machucar."

Mesina foi libertado sem acusações em agosto, mas Blanca está escondida e diz que não se sente segura o suficiente para voltar a Tijuana.

Falta de provas

Dezenas de outras pessoas, policiais e civis, fizeram acusações parecidas, alegando ter sido presas e torturadas para confessar crimes.

Este ano, um relatório do escritório de Tijuana da Comissão de Direitos Humanos do México alegou que o chefe Leyzaola estava presente quando cinco suspeitos foram torturados em 2009 e que ele participou pessoalmente da tortura em um desses casos.

A comissão recomendou que Leyzaola fosse suspenso e uma investigação, realizada.

Leyzaola nega veementemente as acusações.

"São completamente falsas. A procuradoria-geral fez uma investigação. Se houvesse provas, eles teriam apresentado as acusações", diz ele.

"Até agora, ninguém conseguiu provar cientificamente que essas pessoas passaram por esse tipo de tratamento."

Segundo Leyzaola, os grupos de direitos humanos foram manipulados.

"Quando traficantes de drogas não conseguem ganhar a guerra das ruas com sua narco-cultura, eles vão e usam as organizações de direitos humanos. É uma estratégia de defesa", diz ele.

No mês passado, o prefeito de Tijuana nomeou um novo chefe de polícia e Leyzaola passou a ocupar um novo posto como vice-secretário de Segurança Pública do Estado da Baixa Califórnia, que inclui Tijuana.

Muitos lojistas e empresários não gostaram da mudança.

Genaro de la Torre foi sequestrado por integrantes de um cartel seis anos atrás com a ajuda de policiais corruptos. Ele acha que Leyzaola tornou a cidade segura novamente.

"Se você está do lado bom, ele é ótimo. Se você está do lado dos bandidos, você vai chorar", diz de la Torre.

"Você não pode ser misericordioso com um assassino que está vendendo drogas e envenenando jovens."

Problemas permanentes

O presidente mexicano descreve Tijuana como "um exemplo concreto de que o desafio da segurança pública tem uma solução", mas em partes pobres da cidade, a violência entre os cartéis continua.

O número de assassinatos em Tijuana este ano já ultrapassou o total do ano passado. Muitos acreditam que o tráfico de drogas ainda prospera.

"Estamos sentados no topo de um vulcão e provavelmente, em breve, ele vai entrar em erupção de forma violenta", diz Victor Clark Alfaro, diretor do Centro Binacional pelos Direitos Humanos em Tijuana.

Ele acredita que apesar dos esforços para melhorar a polícia municipal, o sistema como um todo continua fracassando.

"O nível de corrupção dos promotores e juízes federais é escandaloso. Você vê traficantes sendo presos na televisão, mas você descobre mais tarde que a maioria foi libertada."

De volta à patrulha do policial Villaseñor, o turno da noite já acalmou e há mais tempo para conversar.

O total da noite é de um homem morto com um tiro na cabeça quando saía de um bar e uma mulher com um ferimento à bala.

Villaseñor e seu parceiro sabem dizer sem titubear qual é a mudança mais significativa realizada por Leyzaola.

"Ele limpou a força (policial)", dizem eles.

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