Tortura em flocos

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Falta um círculo no Inferno de Dante: o dos consumidores compulsivos. Lá eles passariam a eternidade no dia 24 de dezembro, ao som de Jingle bells, fustigados pelo tridente do demônio, vestido de Papai Noel.

Nova York, meca do consumo, seria o modelo do cenário e, para compô-lo, haveria uma nevasca que cairia em grandes e lindos flocos, formando até meio metro de neve, como neste domingo.

Na moldura da janela, com a lareira acesa antes de virar lama, é uma obra divina. Desta vez, com os flocos, vieram raios e trovões, uma raridade. Durante a noite, a neve cresceu. E cresceu. De manhã, perdeu o encanto.

Como subir os quatro degraus para sair de casa? O zelador estava encalhado no trem B. Novaiorquino não tem pá dentro do apartamento. Eis que surge um anjo, um sem-teto com uma pá. Chio, mas pago os US$ 50 para sair de casa. Só no meu quarteirão ele desatola mais dois carros a US$ 60 cada.

Como o metrô não está confiável, este insensato decide ir de carro pelas avenidas que parecem limpas, mas um táxi atola na minha frente, numa curva. O pneu canta e geme. Nenhum policial, nenhum lixeiro ou reboque ouve o canto de socorro.

Quando o motorista do carro logo atrás abre a porta, acho que vem me ajudar a dar um empurrão no táxi. Diante de várias pessoas, ele urina na neve: "Isto é o que esta cidade merece. Nota P de pee (urina)". Saímos numa procissão em marcha a ré, subindo a Broadway, o táxi cantando pneu na esquina.

Nossas torturas na neve são banais comparadas com a dor, que vem pelo rádio e pela TV, do resto da cidade. Naquela mesma manhã, 170 ambulâncias estão encalhadas. A mãe latina da à luz no saguão do prédio, depois de oito horas de espera pela ambulância. Ela sobrevive, o bebê morre. Estavam a cinco quarteirões do hospital.

Outra mulher liga para a emergência. Acha que está no começo de um derrame. E estava, mas quando a ambulância chega, seis horas depois, já está rígida. As equipes de salvamento recebem uma instrução estranha e inédita: se o paciente não reagir em vinte minutos, desistam.

São 50 mil pedidos de socorro pelo número 911, três vezes mais do que no 11 de setembro de 2001.

Virna ia encontrar o noivo em Varsóvia, mas os voos do Kennedy foram cancelados a partir das 04h00 de domingo. Entre dormir no aeroporto desconfortável e metálico para esperar pelo voo do dia seguinte, que também não decolaria, preferiu voltar para casa no Brooklyn. Impossível encontrar um táxi ou mesmo uma limo. Arrastou a mala com o presente da futura sogra até o ônibus que a levou ao trem A, o do aeroporto.

Menos de uma hora depois da partida, o trem “morreu”, como centenas de outros trens na cidade. A neve na chamada “terceira” linha corta a energia. São mais de 500 passageiros sem água, comida, aquecimento, banheiro. O trem despachado para salvá-los teve o mesmo destino. A prisão durou 11 horas.

Quatro aviões de voos internacionais lotados passaram de nove a 12 horas na pista do JFK em condições quase tão precárias quanto as do trem A, porque quando aterrissaram não tinham confirmado portão de chegada. Nos voos domésticos, as companhias que deixam passageiros na pista por mais de três horas, além de multadas, são obrigadas a oferecer compensações, mas não nos voos internacionais. Só em Nova York foram cancelados 5 mil voos.

Na semana retrasada, quando vi os aeroportos e estradas da Europa paralisados, disse que isso jamais aconteceria em Nova York.

Passei por uns cinco ou seis blizzards, nevascas com ventos fortes. Foram terríveis, e o de 2006 despejou muito mais neve do que este último. Em 36 horas, a cidade tinha sido liberada por uma blitzkrieg de caminhões de lixo com gigantescas pás na frente. Vinham quatro juntos numa avenida. Era meu imposto em ação. Viva Nova York! Viva o prefeito Michael Bloomberg!

Hoje foi condenado ao inferno, naquele círculo do Natal, com uma mala de quarenta quilos, ladeira acima, em meio metro de neve e lama.