O Cinema Secreto

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Os melhores filmes foram aqueles que nós vimos garotos entrando sem pagar no cinema e matando aula.

Não me lembro de um único deles. Sei que não foram poucos. Este bonequinho estava sempre de pé batendo palma.

Em matéria de filme cult era o que havia. Discutia-se apenas com outros praticantes desta arte que não ousava dar suas caras ou oferecer seu nome.

Os outros filmes eram apenas filmes. Bons, maus, ruins. Mas filmes, apenas.

O cinema secreto – na verdade, não tinha ainda um nome – era pessoal e intransferível. Pura curtição.

Vendaval de emoções (acho que foi o nome de um desses filmes. Além do mais, com Vera Hruba Ralston. O que só tornava mais picante o prazer), segredo inviolável, mistério à beira-mar.

Era tudo pertencente a uns poucos pequenos truões e só não usávamos capa preta e máscara para não chamar a atenção do gerente e do bilheteiro, os dois grandes obstáculos à vitória de nossas conquistas.

Vivíamos, sem saber, títulos de filmes perdidos, legendas esquecidas, atores desaparecidos que nunca pegaram (Vera Hruba Ralston seria nossa musa, se musa tivéssemos adotado).

Hoje, cinema passou daquele slogan sem graça, “Cinema é a melhor diversão”, a uma realidade digitalizada, em suas diversas modalidades.

Foi laserdisc, VHS, DVD (e Blue Ray, ainda por cima) e agora encontra-se em pleno estado de terceira dimensão, ou 3D, que simplifica mais a coisa, tornando obsoletos aqueles óculos de papelão com “lentes” verdes e vermelhas de, acho que eram, celofane.

O cinema ficou tão importante, mas tão importante que passou, ao menos no Brasil, no Rio de Janeiro, a resolver problema social.

Lá está nas folhas: inauguraram agora, neste fim de ano que passou, na favela do Complexo do Alemão um cinema, o Cine Carioca Nova Brasília, com ar condicionado e todos os modernos confortos, a um custo relativamente barato, apenas 3 milhões de reais, com 93 poltronas (5 para pessoas com necessidades especiais e obesos), que só podem ser de luxo.

A novíssima sala de espetáculos estreou com um filme antigão mas maquiado de terceira dimensão e um Jeff Bridges digitalmente remoçado. Tron - O Legado, seu título em português do Alemão.

Todo mundo que sabe escrever e ocupa lugar em jornal foi unânime: estava resolvido o problema social que há décadas empana as maravilhas de nossa cidade.

Traficantes deixaram tudo de lado – armas brancas e de fogo, drogas – e foram comemorar a auspiciosa ocasião que tem duas horas de duração.

As outras 22 horas do dia? Que farão os habitantes não marginais? E também os marginais, claro? Ora, exegeses do clássico Jeff Bridges.

Incrível não terem pensado nisso antes. O fato de alguns dias depois de sua inauguração o Cine Carioca ter sido apedrejado e vandalizado prova a irritação dos malfeitores malogrados.

Aqui em Londres há literalmente, como na minha infância, um cinema secreto.

Não se chama nem Roxy, Politeama ou Rian. Chama-se O CinemaSecreto. Mesmo e apenas.

Não se destina à recuperação social, pois os ingleses são meio burrões nesse esquema. O Cinema Secreto oscila, eu diria, entre a instalação artística e a velha e boa invenção dos irmãos Lumière.

Sai meio caro. Andei farejando, deixarei para dias melhores. A coisa funciona assim:

Você entra na internet, depois de googlar The Secret Cinema, e se inscreve. Simplíssimo. Aí fica esperando ser convidado para a próxima exibição, se assim a podemos chamar.

Não é barato. Tudo indica, porém, que compensa. O mais recente filme “passado”, lato sensu, foi aquele que nós, inspirados que somos, chamamos de Um Estranho no Ninho, no original One Flew Over The Cuckoo´s Nest, baseado no romance homônimo de Ken Kesey. Vocês manjam. Aquele com o Jack Nicholson no hospício.

Uma vez sócio e feita a reserva, você vai a um lugar específico – sim, são cheios de mistérios, feito quando se batia gazeta e se ia ao cinema Ritz – e mergulha no mundo que já foi da sétima arte e agora, parece estar partindo para a oitava ou nona.

O filme em questão estava sendo passado num hospital abandonado. Só que o filme era a atração final. Antes, o espetáculo, ou a exposição. O frequentador (não dá para ser chamado só de espectador) passa por um desfile de pacientes com olhos de demência vagando por corredores decrépitos, iluminados apenas por oscilantes lâmpadas de 40 watts. Há sangue nas paredes. Música adequada (The Sound of Silence, no caso) cantarolada por centenas de almas vagando por todo o noso- ou será mani-cômio?

Depois é que vem o filme. Que é aquele mesmo repleto de Oscar e que todo mundo já viu. E que, se digitarem e tacarem em 3D, sugiro para nossas favelas. Vai ser recuperação social a mãos cheias (mas não de pedras). Mas passem mesmo. O filme apenas. Sem essas frescuras de “instalações”. Esqueçam a parte “artística”, algo que ocorre sempre entre aspas e nunca tem o mérito da redenção que tem o Cine Carioca do Alemão.