Para analistas, especulação pode estar por trás de alta dos alimentos

Image caption Consumo na China e especulação aumentam o preço dos alimentos

A recente alta dos alimentos no Brasil e no mundo está diretamente relacionada ao crescente consumo na China e à quebra de algumas safras, mas analistas ouvidos pela BBC Brasil também apontam a influência de especuladores nesse processo.

No Brasil, os preços de alimentos e bebidas subiu 10,3% no ano passado, puxando a inflação no país para cima. O IPCA de 2010 cresceu 5,91%, segundo o IBGE.

Com juros praticamente zerados no mercado americano, grandes investidores estariam migrando para aplicações mais rentáveis – dentre elas as commodities agrícolas.

“É algo difícil de comprovar em números, mas há alguns sinais de que esses investidores estejam migrando para os contratos futuros com produtos agrícolas”, diz o economista da FGV-SP Paulo Picchetti.

Criados para proteger financeiramente o agricultor das incertezas do campo, os contratos futuros passaram também a ser fonte de ganho para todo tipo de investidor, incluindo os “grandes” do mercado, como os fundos de hedge.

Quanto maior o volume de contratos negociados, maior a tendência de alta das commodities agrícolas e, em consequência, do preço dos alimentos nas prateleiras.

Um levantamento da agência da ONU para a agricultura e segurança alimentar (FAO), divulgado na última quarta-feira, indicou alta recorde nos preços dos principais alimentos em dezembro do ano passado.

O patamar de preços está próximo ao de 2008, período pré-crise financeira internacional, quando economistas de todo o mundo temiam uma crise de alimentos.

‘Lenha na fogueira

“Não há dúvida de que temos um movimento especulativo por trás da alta dos alimentos”, diz Arnaldo Correa, da Archer Consultoria, especializada na negociação de commodities.

Segundo ele, a presença de investidores diversos no mercado futuro de commodities não chega a ser o “principal responsável” pela alta dos alimentos, mas sim um “fator adicional”.

“Podemos dizer que o especulador põe lenha na fogueira, ou seja, ele procura um investimento com tendência de alta e acaba contribuindo para essa alta”, diz o analista.

Uma das dificuldades dos reguladores e dos agentes de mercado é mensurar o “tamanho” do público especulador, já que, no sistema financeiro, não existe essa distinção.

Um sinal desse movimento pode ser o volume de contratos negociados. No último trimestre do ano passado, a média diária de contratos agrícolas negociados na Bolsa de Chicago ficou 40% maior do que o registrado em 2009.

Os contratos de juros, por exemplo, cresceram 27% e o de moedas estrangeiras, 18% no mesmo período.

Mas, apesar da contribuição de especuladores para a alta de preços, a presença desse tipo de investidor no mercado futuro não é “necessariamente ruim”, na avaliação de Correa.

“Por um lado esse tipo de investidor está apenas preocupado com o lucro, mas também carrega um risco enorme, coisa que o agricultor muitas vezes não pode fazer”, diz.

“Além disso, eles ajudam a dar liquidez ao mercado, o que facilita a negociação dos contratos”, acrescenta o consultor.

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