Compulsório sobre câmbio terá impacto limitado, dizem analistas

Alexandre Tombini, presidente do BC - Reuters
Image caption Medida cambial foi a primeira anunciada pelo novo presidente do BC

As medidas anunciadas na quinta-feira pelo Banco Central do Brasil para conter a apreciação do real deverão ter um impacto limitado e de curto prazo, mas devem ser seguidas por medidas semelhantes em outros países emergentes, na avaliação de especialistas consultados pela BBC Brasil.

Para eles, no entanto, as medidas não representam a consolidação de uma “guerra cambial”, com ações generalizadas de controle de capital entre os países, como havia advertido no ano passado o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

“As medidas anunciadas pelo Brasil são uma ação benigna, de regulação macroprudencial, não constitui controle de capital”, afirma Jerome Booth, diretor de pesquisas da corretora Ashmore Investment Management. “Isso é uma maneira de fazer isso (intervir no câmbio) de maneira amigável para o mercado”, afirma.

Diante da queda do dólar frente ao real, o BC decidiu impor um compulsório em grande parte das operações de câmbio no país. O objetivo é evitar que os agentes de mercado continuem apostando fortemente na valorização da moeda brasileira, o que faz seu valor subir.

Para Booth, países como o Brasil, que liberalizaram seu sistema de câmbio e se beneficiaram disso, não querem voltar ao passado e reinstituir controles de capital.

“Uma verdadeira guerra cambial, com controles de capital e protecionismo, só apareceria a partir dos países que realmente estão sofrendo, dos Estados Unidos e da Europa”, observa.

Processo gradual

Para Paul Mackell, estrategista sênior da área global do banco HSBC, as medidas anunciadas pelo Banco Central são sequência de um processo gradual, com medidas pontuais tomadas por países emergentes para evitar a apreciação excessiva de suas moedas.

“Esse tipo de medida vai continuar a aparecer de tempos em tempos. Mas elas não são severas o suficiente para conter a valorização. Podem somente desacelerar a valorização, o que é o melhor que podemos esperar”, comenta Mackell.

Para ele, os países arriscariam afastar os fluxos de capital benéficos se adotassem medidas muito agressivas de controle de capitais. “Se os investidores ficarem preocupados achando que o Brasil vai tomar medidas de controle, acabarão indo para outros países que não estão tomando essas medidas”, diz.

Os especialistas consultados consideram que a questão das disputas cambiais seguirá em pauta pelos próximos meses, em consequência da crise enfrentada pelos Estados Unidos e por países europeus.

Para Neil Shearing, economista sênior para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, a questão fundamental por trás da valorização das moedas de países em desenvolvimento é a crise nos países desenvolvidos aliada a um excesso de liquidez em países com grandes superávits em conta corrente, como China, Alemanha e Japão, gerando um fluxo de capital em busca de remunerações maiores nos emergentes.

“É possível reduzir a velocidade da valorização da moeda, mas as medidas (como as brasileiras) não resolverão a questão fundamental”, afirma.

Governo Dilma

Shearing diz ver o novo governo brasileiro mais disposto a pressionar a China para que permita uma valorização maior de sua moeda, atualmente atrelada ao dólar em um regime de câmbio controlado, o que a deixa mais fraca em relação a outras moedas.

O câmbio controlado chinês vem sendo alvo de críticas por parte dos Estados Unidos há tempos, mas muitos países desenvolvidos vinham evitando dirigir suas críticas ao país asiático.

Durante a última reunião de cúpula do G20, na Coreia do Sul, em novembro, na qual as disputas cambiais foram um dos principais temas da agenda, os Estados Unidos se viram como principal alvo das críticas, após o anúncio da injeção de US$ 600 bilhões para aquecer a economia local, o que poderia levar a um enfraquecimento do dólar em relação às demais moedas.

“Creio que uma das diferenças entre Lula e Dilma é que Lula tinha muito menos disposição para enfrentar os chineses”, comenta Shearing. “Se isso vai ter um impacto, não sei, mas já é um avanço”, diz.

No entanto Paul Mackell, do HSBC, vê como pouco provável que a China altere sua política cambial, apesar das pressões. “A pressão vai persistir sobre a China, mas os líderes chineses já deixaram claro que eles é que vão determinar quando e como haverá uma apreciação e que isso é uma questão soberana. Vai ser um processo lento e gradual”, afirma.

‘Flexibilidade’

Para o economista da Ashmore, a China poderia mostrar sinais de flexibilização em sua política cambial ao permitir que outros países comprassem grandes quantidades de moeda chinesa para balancear as taxas de câmbio.

Atualmente, a China proíbe que sua moeda seja comercializada no exterior. Para Booth, a China poderia seguir a mesma linha adotada pela Alemanha no passado com o marco durante um período de transição entre um sistema de controle de capitais e a liberalização.

Nesse contexto, ele vê a possibilidade de um consenso internacional, possivelmente entre os países do G20, para permitir que os bancos centrais dos países possam comprar grandes quantidades de moedas dos outros países como medida para evitar grandes valorizações de suas moedas frente às outras.

“Há vários sinais que indicam que a China poderia ser receptiva à idéia de permitir que isso aconteça”, afirma Booth. “Potencialmente, se houver uma ação coordenada, as taxas de câmbio poderão se manter em níveis acordados por meio dessas operações de compra e venda”, diz.

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