Dentista conta como sobreviveu em prédio que foi tomado pela enxurrada

Gladys Garcia
Image caption Gladys (dir.) chegou a ligar para filha, Eloisa (centro), para se despedir

“Nunca vi a morte de tão perto”, relembra ainda aterrorizada a dentista Gladys Garcia, de 50 anos, que conseguiu se salvar dos deslizamentos que arrasaram Nova Friburgo nesta semana.

Ela conta que, na noite de terça-feira, estava de plantão na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade, localizada no bairro de Conselheiro Paulino, quando começou a chover forte.

Junto com Gladys estavam outros 20 profissionais da área de saúde, entre enfermeiros, pediatras, médicos, farmacêuticos, além de funcionários da limpeza e motoristas de ambulância.

A dentista explica que o grupo achava estar seguro porque o prédio da UPA, apesar de próximo a um rio, fica bastante recuado e é suspenso por estruturas de aço, a quase dois metros do chão.

Mas, para surpresa de todos que estavam de plantão naquele dia, a água cercou o prédio e começou a entrar por todos os lados pouco depois da meia-noite.

“Tudo aconteceu muito rápido”, relembra Gladys.

Telhado

Neste momento, ela conta que um motorista de ambulância, um homem alto e forte, teve a ideia de levar todo mundo para o telhado. Mas, antes, decidiu fazer um teste para ter a certeza de que a estrutura suportaria o peso da pessoa mais magra do grupo, uma enfermeira com pouco mais de 20 anos.

Gladys lembra que a mulher saiu pelo basculante do banheiro. “Na hora em que ela pisou, um pedaço do telhado afundou”, relata.

Com o primeiro plano de fuga abortado, o grupo fez uma corrente com lençóis.

“A meta era tentar sair pela porta de trás e ir até o prédio ao lado, que fica a uns 50 metros de distância. Combinamos que os homens iriam na frente e as mulheres atrás, segurando”.

Mas o plano B também não deu certo. Ao se aproximarem da saída, eles viram que não dava para calcular a profundidade da água do lado de fora.

“Muitos de nós não sabíamos nadar, inclusive eu. Não podíamos arriscar”.

A dentista conta que a solução foi ficar dentro da UPA e esperar pelo pior. Às 2h30 ela ligou para o marido pedindo socorro, mas a ligação caiu.

União

“Os telefones fixos pararam de funcionar e só alguns celulares pegavam”, relata. Com a água na altura da coxa por quase três horas, o grupo deu as mãos e começou a rezar.

“Nós tínhamos a certeza de que íamos morrer ali, sozinhos. Foi uma união linda e foi isso que nos manteve vivos”, relembra emocionada.

Por volta das 5h algumas pessoas começaram a ligar de celulares para os parentes para se despedir. Gladys hesitou por meia hora, mas decidiu ligar para a filha Eloisa, de 24 anos, para lhe dizer o que acreditava ser suas últimas palavras.

“A bateria estava no fim. O telefone tocou três vezes e quando ela atendeu o celular apagou”, diz ela, aliviada por não ter preocupado a filha.

Por volta das 6h de quarta-feira a chuva diminuiu bastante e meia hora depois o nível da água dentro do prédio começou a baixar.

O grupo teve de esperar até o meio-dia para conseguir sair da UPA com segurança.

“Do lado de fora, só lama”, lembra. “Apesar de encharcada, a ambulância ainda estava funcionando e consegui uma carona até a casa da minha filha. Só pensava em abraçá-la”.

Desde a experiência “inesquecível e aterrorizante”, Gladys não encontrou com os colegas da UPA.

Ela diz que não tem medo de voltar a trabalhar no local e que durante a enchente nenhum lugar da cidade era considerado seguro.

“Foi Deus que me salvou”, conclui.