‘Aqui era o paraíso’, diz estudante que escapou da morte em Teresópolis

Emanuel Pavani Torres (Foto: Rafael Spuldar/BBC Brasil)
Image caption Emanuel passava férias em Teresópolis

Entre os diversos condomínios e propriedades destruídos na enxurrada da madrugada de quarta-feira nas localidades de Posse e Campo Grande, em Teresópolis, estava o sítio do estudante carioca Emanuel Pavani Torres, 30 anos, que escapou por pouco de ser levado pela lama.

"Isto aqui era o paraíso", disse Emanuel à BBC Brasil no local onde ficava o seu sítio, em Campo Grande.

O carioca atualmente mora em Los Angeles, onde estuda em uma universidade, e estava passando as férias em Teresópolis, na propriedade que era de sua família há 30 anos. Emanuel diz que o local era parte importante de sua vida.

"Quando eu era menor, vivia aqui, brincava com as crianças da vizinhança", afirma. "E quando se é criança, não tem isso de ser pobre, rico, a criança não quer saber."

Emanuel estava no sítio no momento da tragédia. Quando ele viu a avalanche se aproximando, subiu no telhado da casa principal. Sem se sentir seguro, ele pulou para a parte de trás e escalou a torre da caixa d'água, que fica em um nível bem mais alto. Lá, ele ficou até as 6h de quarta.

"Eu estava certo de que ia morrer, não sei como sobrevivi", conta. "Todos os momentos foram assustadores."

Depois que a enxurrada passou, o estudante começou a procurar pelo empregado do sítio. Uma hora depois, ele foi encontrado vivo, todo coberto de lama e com vários arranhões. A partir daí, Emanuel passou a ajudar nos trabalhos de resgate.

Corpos no jardim

Emanuel diz ter participado do resgate de 17 pessoas, que foram levadas a locais mais seguros. Segundo ele, até os integrantes da Defesa Civil estavam assustados com a situação em Campo Grande.

Image caption No jardim do sítio destruído foram encontrados corpos de vítimas

Junto da área onde ficavam a piscina e o jardim de seu sítio, o estudante afirma ter encontrado 15 corpos. "Mas havia muito mais fora daqui", diz. Entre os mortos das redondezas, estavam vários conhecidos seus, alguns do tempo de infância.

A casa principal do sítio foi totalmente engolida pela lama. Várias paredes cederam com a força da enxurrada. Na sala, uma estante restava de pé, com um aparelho de som e alguns itens de decoração. Por uma porta, obstruída por entulho, era possível ver um corredor que leva para os quartos - todos com sinais de destruição.

Em outra dependência da casa, uma parede foi totalmente arrancada, expondo os móveis e objetos em seu interior: um armário com porcelanas, um relógio de parede e um lustre compunham o cenário.

Emanuel afirma que participou dos trabalhos de resgate até as 17h de quarta-feira, quando ficou sem forças para continuar. Depois disso, levou seu funcionário para um hospital e desceu para o Rio, onde moram seus pais, para voltar a Teresópolis no dia seguinte, para tentar salvar alguns pertences.

O estudante diz que, dos objetos que havia na casa, há pouco o que aproveitar. Mas ele conseguiu recuperar algumas fotos da família. "Nessa hora, é importante conseguir salvar essas lembranças", diz.

Image caption Destruição do sítio arruinou lembranças de família

Sobre o futuro, não tem esperanças de conseguir reerguer a propriedade de sua família tão cedo. "Vamos ver se conseguimos ajuda do governo. Sem isso, vai ser impossível fazer alguma coisa".

Calamidade pública

Neste domingo, Teresópolis registrou chuva praticamente sem interrupção desde o meio da manhã até o fim da tarde.

O governador do Rio, Sérgio Cabral, declarou estado de calamidade pública em sete municípios do Estado: Areal, Bom Jardim, Nova Friburgo, Petrópolis, São José do Vale do Rio Preto, Sumidouro e Teresópolis.

O número oficial de mortos devido às chuvas na região serrana do Rio chegou na noite deste domingo a 631, segundo a Defesa Civil estadual. Em Nova Friburgo, foram 287 vítimas, além de 269 em Teresópolis, 56 em Petrópolis e 19 em Sumidouro.

Colaborou Paulo Cabral, da BBC News

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