Egípcio morre após atear fogo a si mesmo

Mohamed Farouk Hassan
Image caption Outro egípcio que se incendiou nesta terça foi hospitalizado

Um homem de 25 anos morreu nesta terça-feira após atear fogo a si mesmo na cidade de Alexandria, no norte do Egito.

Autoridades dizem que o homem, chamado Ahmed Hashem El-Sayed, estava desempregado. Antes, ainda nesta terça-feira, outro homem pôs fogo em si mesmo no Cairo, capital egípcia, e na segunda-feira mais um se incendiou em frente ao Parlamento do país, na mesma cidade.

Os casos são os últimos de uma série de autoimolações ocorridas nas últimas semanas no norte da África e ecoam o gesto do tunisiano Mohamed Bouazizi, que morreu no início deste mês.

Bouazizi, de 26 anos, ateou fogo a si mesmo na cidade de Sidi Bouzid (centro da Tunísia) no meio de dezembro, após a polícia o proibir de vender vegetais sem uma licença.

O ato foi considerado o estopim de uma onda de violentas manifestações em toda a Tunísia contra o desemprego, a corrupção e os altos preços de alimentos. Os protestos resultaram na renúncia do presidente Zine Al-Abidine Ben Ali na última sexta-feira.

Nas últimas semanas, foram registrados casos de pessoas ateando fogo a si mesmas também na Argélia e na Mauritânia.

Paralelos

No Egito, muitos têm protestado pelas mesmas razões que os tunisianos. O blogueiro egípcio Hossam El-Hamalawy disse à BBC que seus concidadãos têm se identificado com os tunisianos.

“Há um grande interesse. O povo egípcio têm acompanhado os eventos na Tunísia com muita alegria, já que eles podem estabelecer paralelos entre a situação tunisiana e a deles mesmos”, diz.

Abdu Abdel-Monaim Kamal, que se incendiou em frente ao parlamento na segunda-feira, sofreu queimaduras leves e está sendo tratado em um hospital.

Kamal é dono de um restaurante na cidade de Ismaília, ao leste do Cairo. O site do jornal egípcio Al-Ahram diz que ele discutiu várias vezes com autoridades locais sobre o preço do pão.

Um grupo egípcio no Facebook convocou protestos para o dia 25 de janeiro. Os organizadores estão chamando o evento de “dia da revolução contra a tortura, pobreza, corrupção e desemprego”.

Forma rara de protesto

Embora não haja provas de que os eventos na Tunísia desencadearam os protestos no Egito, assim como manifestações em outros países, o professor de sociologia da Universidade de Oxford Michael Biggs diz que, historicamente, atos como esses sempre tiveram conexão.

Segundo Biggs, porém, a autoimolação como protesto político é rara no mundo islâmico.

O professor diz que, nas últimas décadas, centenas de pessoas sacrificaram suas vidas nesses tipos de protesto, incluindo budistas vietnamitas, nacionalistas lituanos, esquerdistas sul-coreanos e estudantes indianos de altas castas.

Mas ele afirma que o método é “novo nesta parte do mundo”, e as poucas exceções são uma onda de autoimolações por curdos no fim dos anos 90. Estas, no entanto, ocorreram na Europa.

Simbolismo

John Esposito, professor de estudos islâmicos da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, diz que o suicídio é geralmente visto de forma negativa pelos muçulmanos.

“Mas o que está acontecendo no momento adquiriu um tipo diferente de simbolismo”, afirma.

“O que temos visto nessas áreas são movimentos rumo a formas distintas de resistência, transcendendo as normas culturais e religiosas tradicionais”, diz Esposito.

Como o Islã proíbe a cremação de corpos, conta o professor, o gesto se torna ainda mais chocante.

Ele afirma, porém, que “o senso de justiça social está firmemente enraizado no Corão”, o livro sagrado do Islã.

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