Análise: Protestos no Egito ainda não ameaçam Mubarak

Manifestante tenta arrancar poster de Mubarak em Alexandria Direito de imagem BBC World Service
Image caption Protestos ainda não mobilizam boa parte da sociedade egípcia

Milhares de pessoas têm participado das manifestações no Egito contra o governo do presidente Hosni Mubarak, no poder há 29 anos. Mas, até agora, não há sinais de que os protestos tenham ameaçado a posição do líder egípcio.

Na quarta-feira, o Ministério do Interior declarou que todas as demonstrações são consideradas ilegais, e a polícia agiu rapidamente para dispersar qualquer tipo de aglomeração.

Autoridades de segurança do país informaram que mil pessoas já foram presas. Apesar disso, os manifestantes se recusam a encerrar os protestos.

Houve confrontos envolvendo oposicionistas e policiais em várias cidades do Egito. Algumas das cenas mais violentas ocorreram em Suez, no leste, onde três manifestantes morreram na terça-feira.

Quando as autoridades se recusaram a liberar um dos corpos na quarta-feira, a multidão incendiou um prédio do governo.

Vida normal

Mesmo assim, até o momento, a vida parece continuar normalmente na maior parte do país.

A grande maioria dos egípcios está ocupada demais tentando sobreviver para se juntar aos protestos. Há uma sensação geral de insatisfação e decepção com o governo, mas provavelmente não há mais do que alguns milhares de pessoas expressando ativamente esta insatisfação. E isto pode dar alguma segurança ao governo.

Os protestos vêm ocorrendo sem um líder, convocados por meio de mensagens no Facebook ou Twitter.

Isso pode mudar, porém. Existe a expectativa de que eles sejam muito maiores e organizados nesta sexta-feira.

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Image caption El-Baradei conta com o apoio da classe média do Egito

O movimento oposicionista banido Irmandade Muçulmana, deu seu apoio às manifestações, depois de permanecer dias sem oferecer seu respaldo oficial.

A Irmandade Muçulmana é o único movimento que realmente pode reunir multidões no país.

Além disso, o ex-chefe da agência de energia atômica da ONU e líder opositor, Mohamed El-Baradei, chegou ao Egito e prometeu participar dos protestos. Isto poderá dar alguma força aos protestos, mas o apoio a Baradei vem mais da classe média do que da grande maioria da população.

Governo

O governo, por sua vez, tem dado uma resposta muito familiar às manifestações, que é tratar um movimento de protesto político e social simplesmente como uma ameaça à segurança.

Os jornais egípcios desta quinta-feira estavam cheios de notícias sobre uma série de reuniões de emergência nos bastidores, enquanto o governo analisa a possibilidade de responder à crise com aumentos de salários e respondendo às muitas queixas dos manifestantes e egípcios comuns.

Isto poderá aliviar a pressão na camada mais pobre da sociedade, mas não vai satisfazer os jovens de classe média que estão tomando as ruas e cujas reclamações não são apenas econômicas.

Os egípcios geralmente falam que o país precisa de um sonho, uma visão. Mas, durante 30 anos, a mensagem do presidente Hosni Mubarak foi bem menos ambiciosa, concentrada na segurança.

Este governo e o sistema do Egito não são tão frágeis como na Tunísia, onde o presidente Ben Ali foi derrubado de forma espetacular neste mês.

Os militares, os países ocidentais e muitos egípcios ricos e poderosos têm muito interesse em manter o presidente Mubarak ou, pelo menos, garantir uma transição pacífica para outro líder simpático ao ocidente e aos negócios. E ainda não há sinal de que estes protestos têm força para superar isto.

Mas, em todo o Oriente Médio, a situação agora é tão imprevisível e os acontecimentos estão evoluindo tão rapidamente que quase tudo pode acontecer.

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