Análise: Distúrbios no Egito são dilema para Obama

Mubarak e Obama, em foto de arquivo
Image caption Obama pediu pela 'liberdade de expressão' no aliado Egito

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, instou os dois lados dos distúrbios no Egito a não usar a violência, mas mostrou-se favorável a mudanças no país árabe.

“Há certos valores centrais em que acreditamos como americanos e que acreditamos que sejam universais: a liberdade de expressão, a liberdade para as pessoas usarem redes sociais e quaisquer outros mecanismos para se comunicar e para expressar suas preocupações. E isso não é menos verdade no mundo árabe do que é aqui nos Estados Unidos”, disse Obama.

Mas o americano enfrenta um dilema – um que outros presidentes enfrentaram na América do Sul, na Ásia e até no mundo árabe. O que é mais importante: princípios atemporais ou aliados confiáveis?

O Egito é importante para os EUA. É o país guardião do ainda crítico canal de Suez e a mais populosa nação na região. Foi o primeiro país naquela parte do mundo a fazer as pazes com Israel e, sob a perspectiva dos políticos americanos, uma força de moderação e razão.

O país recebe US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 2,5 bilhões) em ajuda dos Estados Unidos, pouco atrás de Israel, Paquistão e Afeganistão. Quando Obama quis mandar a mensagem de recomeço nas relações com o mundo muçulmano, escolheu o Cairo como cenário de seu discurso.

Reação

Há quem pense que a reação dos EUA às demonstrações nas ruas egípcias é confusa e incerta. Não há dúvidas de que ainda há um grande debate interno.

Mas há uma resposta emergindo, ainda que seja caracterizada por trepidações e por pensamentos positivos. O porta-voz de Obama, Robert Gibbs, disse que o presidente egípcio, Hosni Mubarak, é um parceiro próximo e importante, mas agregou que a Casa Branca tem exercido pressões sobre o egípcio.

No Departamento de Estado, o porta-voz PJ Crowley declarou: “Reformas são necessárias (no Egito), não há dúvidas quanto a isso”. Mas o mais interessante foi a análise que se seguiu.

“Há uma dinâmica regional (...). Do Oriente Médio ao norte da África, os países enfrentam desafios demográficos similares – populações jovens, altamente educadas, muito motivadas, procurando empregos e oportunidades e, para ser franco, frustradas com o que veem, dependendo do país, como a falta de oportunidades”, agregou Crowley.

Então, ao menos o Departamento de Estado acredita que um vento de mudanças está soprando no norte da África, e os EUA não querem estar do lado errado da história ou do lado errado dos novos líderes, de quem podem se tornar grandes amigos se tratados corretamente.

Claramente os EUA não serão rudes com um velho aliado, mas tampouco vão apostar todas as suas fichas nos instintos de reforma de um octogenário – Mubarak – que resiste a mudanças há três décadas.

Diferenças americanas

Mas isso nos traz de volta a um dos mais antigos problemas dos EUA. Desde os fundadores do país, sempre houve americanos que esperavam que seu exemplo inspirasse o mundo a descartar tiranos e ditadores e a adotar a democracia. E sempre houve outros americanos que acham que a democracia está bem, e o problema é dos estrangeiros que votam nos políticos errados.

Antes, eles se preocupavam com os comunistas; agora, é com os islâmicos. Robert Kaplan, do Center for a New American Security, um centro de estudos em Washington, defende a “realpolitik” no caso, explicando que, “em termos de interesses americanos e paz regional, há muitos riscos na democracia”.

“Não foram os democratas, mas os autocratas árabes Anwar Sadat, do Egito, e o Rei Hussein, da Jordânia, que fizeram as pazes com Israel. Um autocrata firme no comando pode fazer concessões mais facilmente do que um líder eleito, porém fraco. Basta observar a fragilidade do governo de Mahmoud Abbas na Cisjordânia. E foi a democracia que levou os extremistas do Hamas ao poder em Gaza”, disse Kaplan.

Afinal, no Egito, o maior e mais organizado movimento de oposição é – apesar de ser banido das atividades políticas – a Irmandade Muçulmana. Alguns dizem que eles ganhariam facilmente qualquer eleição livre no Egito, e, nesse caso, estariam longe de ser um parceiro próximo dos EUA e de Obama.

A opinião da publicação conservadora National Review pode estar mais próxima da visão do governo Obama, ainda que expressa em linguagem mais direta:

"Mubarak era para ser supostamente o ‘nosso fdp’, mas, ao distorcer o cenário político egípcio para fazer a escolha ser entre ele e os islâmicos, ele foi apenas um fdp. Deveríamos (os EUA) querer que ele saia de cena – mas não ainda."

Obama, neste momento, talvez deseje não a mudança em que ele acredita, e sim a mudança com a qual ele possa viver.

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