Indústria espera ‘maior pressão’ comercial sobre a China no governo Dilma

Containers sendo colocados em navios para exportação na China
Image caption Diferenças na balança comercial com a China preocupam brasileiros

Representantes da indústria, tanto no governo federal como na iniciativa privada, vêm trabalhando com a expectativa de que a presidente Dilma Rousseff possa inaugurar uma “nova fase” na relação com os chineses, caracterizada por uma “maior pressão” no campo comercial.

O principal argumento é de que, passada a fase de maior aproximação política entre os dois países, bastante incentivada durante o governo Lula, o governo Dilma terá espaço para se concentrar na questão econômica.

No Ministério da Indústria e Comércio (Mdic), a avaliação é de que a relação político-estratégica com os chineses nos anos Lula foi “válida”, mas que acabou sendo “leniente” com os parceiros asiáticos do ponto de vista comercial.

“A presidente Dilma inicia seu mandato sem os compromissos políticos assumidos no governo Lula. Por isso, existe agora uma expectativa de que possamos entrar em uma nova fase com os chineses, de maior cobrança no comércio”, diz um representante do Ministério.

A ideia é que o governo brasileiro utilize com mais frequência alguns mecanismos de defesa comercial, sobretudo as medidas antidumping, que visam coibir a prática de subfaturamento – um dos principais problemas nas importações chinesas.

A China já é alvo de 40% de todas as medidas antidumping adotadas pelo governo brasileiro e, na avaliação de técnicos do governo, o Brasil pode ampliar esse número sem grande perigo de retaliação.

“Os chineses importam do Brasil basicamente minério e soja, dois itens essenciais para eles, o que dificulta a retaliação”, diz a fonte.

Diferenças

Em oito anos de governo Lula, as importações de produtos chineses saíram de US$ 1,55 bilhão para US$ 25,5 bilhões – um aumento de mais de 1.500%. As exportações para o país asiático cresceram praticamente na mesma proporção, de US$ 2,52 bilhões para US$ 40,7 bilhões.

O que incomoda tanto o governo quanto a indústria é a diferença nos produtos das duas pautas. Dos dez itens de maior valor importados da China, todos são de maior valor agregado, como componentes para televisores, telas de computador e aparelhos celulares.

Já as exportações brasileiras para o país asiático são dominadas por produtos básicos e commodities agrícolas, como minério de ferro, soja e açúcar.

Para o diretor-adjunto do departamento de Comércio Exterior da Fiesp, Ricardo Martins, a diferença cambial entre as moedas de China e Brasil, que segundo ele chega a 60%, também contribui para o problema.

“Não estamos falando apenas de práticas desleais como o dumping, mas também de uma defasagem cambial que prejudica as exportações brasileiras”, diz.

A grande expectativa do setor industrial, segundo o executivo da Fiesp, é de que o Itamaraty volte a dar ênfase nas questões comerciais, e que essa nova fase possa resultar, inclusive, em uma maior cobrança sobre a China no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

“O ideal é que essa discussão sobre a desvalorização da moeda chinesa também seja encampada pelo Itamaraty, que poderia levar o tema à OMC”, diz Martins.

“A grande esperança é que o Ministério das Relações Exteriores cumpra seu papel de buscar uma maior integração do Brasil no comércio internacional, assunto deixado de lado pela diplomacia do governo Lula”, acrescenta.

Na avaliação de Soraya Rosar, gerente-executiva de Negociações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o governo Lula ajudou a “pavimentar” uma relação de “confiança” com os chineses, mas que o momento, agora, é de “rever certos pontos da relação”.

“Essa aproximação política foi boa em um primeiro momento, mas agora precisamos discutir assuntos específicos, como câmbio e acesso ao mercado chinês para produtos nossos que não sejam apenas matérias-primas”, diz.

Obstáculos

Apesar do momento mais “favorável” para as cobranças comerciais, a possibilidade de uma “nova fase” com os chineses deverá esbarrar em alguns obstáculos dentro do próprio governo.

Um deles é político, já que os dois países têm atuado de forma conjunta em temas relevantes, como a mudança do clima, além de diversos projetos de cooperação com a África do Sul e no âmbito do Brics, grupo formado por Brasil, China, Índia e Rússia.

Ainda no campo diplomático, o Itamaraty vem tentando conquistar o apoio da China em prol de uma reforma no Conselho de Segurança das Nações Unidas que possa render ao Brasil um assento permanente.

Além disso, a China é a principal parceira do Brasil em um projeto considerado estratégico para o governo brasileiro: o de lançamento de satélites para monitoramento terrestre, com os dois países planejando seu quarto lançamento para este ano.

“Pode até existir algum espaço para um outro tipo de relação com os chineses, mas acho difícil pensar em um confronto”, diz o advogado Durval Noronha, que tem acompanhado negócios entre empresas dos dois países.

Na avaliação de Noronha, os chineses vêm despontando como grandes investidores no Brasil e um clima de pressão pode colocar em risco alguns projetos em conjunto.

“A tendência ainda é de crescimento no comércio bilateral, com maior parceria entre as empresas. Qualquer mudança nas relações entre os dois países terá de ser feita com muita habilidade”, diz o advogado.

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