Manifestantes desafiam toque de recolher estendido no Egito

Manifestantes sobrem em tanque do Exército na praça Tahrir, no Cairo (Reuters) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Milhares de manifestantes contra Mubarak voltaram às ruas do Cairo neste sábado

Milhares de manifestantes continuam nas ruas das principais cidades do Egito, mesmo com a extensão do toque de recolher no país, anunciada neste sábado pelo exército.

O toque de recolher foi remanejado para começar às 16h (horário local, meio-dia em Brasília) e terminar às 8h de domingo (4h em Brasília) na capital egípcia, Cairo, e nas cidades de Alexandria e Suez.

As forças armadas do Egito alertaram que aqueles que violarem o toque de recolher estarão em perigo. Foi emitido um comunicado pedindo que as pessoas não façam saques e que não promovam o caos.

A praça Tahrir, localizada no centro do Cairo e principal concentração dos protestos na capital, continua tomada por manifestantes. No entanto, os soldados e os veículos blindados enviados para o local ainda não entraram em ação.

Um correspondente do serviço em árabe da BBC que esteve no local afirma que existe um clima amistoso entre o exército e as pessoas que participam dos protestos.

Os manifestantes voltaram às ruas pelo quinto dia consecutivo pedindo a renúncia do presidente egípcio, Hosni Mubarak. Pelo menos 38 pessoas já morreram desde o início dos protestos.

Novo gabinete

A extensão do toque de recolher foi anunciada logo depois da renúncia do gabinete de governo, apresentada neste sábado.

Mubarak já empossou o chefe de Inteligencia egípcio, Omar Suleiman, como vice-presidente - cargo que nunca havia sido ocupado nos 31 anos de seu governo.

Já o novo primeiro-ministro será Ahmed Shafiq, que antes ocupava o Ministério da Aviação. Ele ficará responsável por formar o novo gabinete.

Na noite de sexta-feira, Mubarak fez o primeiro pronunciamento desde o início da onda de manifestações. No discurso transmitido pela televisão, Mubarak anunciou a dissolução do governo.

Confronto no Cairo

Houve confrontos entre forças policiais e manifestantes perto da sede do Ministério do Interior, na capital. Fumaça também pode ser vista na sede do NDP, o partido de Hosni Mubarak, que foi incendiada na madrugada deste sábado.

Autoridades da área da saúde afirmam que pelo menos 38 pessoas morreram no Egito desde que os protestos tiveram início, na última terça-feira. Há pelos menos dois mil feridos.

"Projéteis de verdade foram disparados contra os manifestantes, mirando as suas cabeças", disse o médico Yaser Sayyed, do Hospital Sayyed Galal, ao serviço em árabe da BBC.

"Nós vimos mais de 20 casos de disparos com feridas de entrada da bala na frente do crânio e marcas de saída do outro lado, crânios fraturados (...) além dos ferimentos de tórax."

Sem internet

Segundo fontes médicas, ao menos 13 pessoas morreram em Suez e cinco morreram no Cairo em confrontos na sexta-feira.

Os serviços de telefonia celular foram retomados na capital egípcia, mas a internet continua bloqueada.

Em Suez, os soldados estão nas ruas depois que a polícia e autoridades da cidade fugiram da violência dos protestos da sexta-feira. A principal delegacia de polícia da cidade foi incendiada.

Há informações de que em Alexandria, no norte do Egito, milhares de manifestantes estão nas ruas e confrontos estão ocorrendo na cidade.

Outros relatos dão conta de que o líder da oposição e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei estaria sendo mantido em prisão domiciliar, mas a versão não foi confirmada oficialmente.

ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), chegou ao Cairo na quinta-feira para se juntar às manifestações.

Novo governo

No primeiro pronunciamento desde o início da onda de manifestações, o presidente Hosni Mubarak anunciou na sexta-feira a dissolução do governo. Mubarak deve nomear o novo gabinete ainda neste sábado.

Em discurso transmitido pela TV estatal, Mubarak, que está no poder desde 1981, disse ainda que os protestos não estariam ocorrendo caso seu governo não tivesse introduzido liberdades civis e de imprensa no país.

Ele defendeu a atuação das forças de segurança na repressão das manifestações e afirmou que não permitiria que o Egito, país tão importante para o norte da África e o Oriente Médio, seja desestabilizado.

O discurso de Mubarak ocorreu enquanto milhares de manifestantes desafiavam um toque de recolher imposto no país nesta sexta-feira, apesar da presença de militares nas ruas. Durante a madrugada ocorreram incêndios e saques às lojas da capital.

O Exército cercou o Museu Nacional do Egito, que fica próximo da sede do partido do governo, o Partido Nacional Democrático, incendiada pelos manifestantes. A operação no museu visa proteger os tesouros históricos do país, como a máscara de ouro do faraó Tutankhamon.

Os manifestantes também cercaram os prédios do Ministério das Relações Exteriores e da TV estatal durante a noite.

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Image caption Locais onde têm ocorrido os protestos no Egito

Tunísia

As manifestações da sexta-feira - de proporção sem precedentes na história do Egito - se seguem a três dias de protestos e foram inspiradas em uma onda de manifestações populares que culminou com a queda do presidente da Tunísia, Zine Al-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

Também na sexta, policiais tunisianos evacuaram um acampamento de manifestantes diante do escritório do primeiro-ministro Mohamed Ghannouchi, em Túnis. Eles exigiam a renúncia do governo interino e a saída de todos os aliados de Ben Ali.

O premiê voltou a pedir calma aos manifestantes e disse que seu governo continuaria no poder até a instauração da democracia no país.

No Cairo, policiais entraram em confronto com milhares de manifestantes nas ruas, usando bombas de gás lacrimogêneo e canhões d'água para dispersar a multidão, que respondeu atirando pedras, queimando pneus e montando barricadas.

A BBC Brasil acompanhou alguns embates e viu policiais à paisana baterem em mulheres que caminhavam perto da multidão.

Conforme a noite avançava, helicópteros sobrevoavam a capital e tiros eram ouvidos.

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Image caption Ao menos mil pessoas foram presas nos protestos

Estados Unidos

Em um discurso transmitido pela televisão logo depois do pronunciamento de Mubarak, o presidente americano, Barack Obama, afirmou que conversou longamente com o presidente egípcio pelo telefone e pediu a ele que respeite os direitos do povo egípcio e evite usar violência contra os manifestantes pacíficos. Mas, Obama também falou que os manifestantes tem a responsabilidade de se expressar de forma pacífica.

Ele pediu a Mubarak que tome "medidas concretas que avancem com os direitos do povo egípcio" e cumpra as promessas de reforma no país.

"A violência não vai tratar das queixas do povo egípcio. E reprimir ideias nunca consegue fazer eles (os manifestantes) irem embora", disse.

"Certamente, tempos difíceis virão, mas os Estados Unidos vão continuar a defender os direitos do povo egípcio e trabalhar com o governo do país para um futuro mais justo, mais livre e mais esperançoso", afirmou Obama.

Mais cedo, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que os Estados Unidos poderão revisar sua ajuda ao Egito com base no desenrolar dos eventos nos próximos dias.

O Egito é o quarto principal destinatário de ajuda americana, atrás apenas do Afeganistão, do Paquistão e de Israel.

Nesta sexta-feira, os governos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França lançaram um alerta para seus cidadãos, desaconselhando qualquer viagem não-essencial ao Egito.

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