Egípcios retomam protestos pelo quinto dia consecutivo

Soldados egípcios no topo de um veículo blindado no Cairo (Reuters) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Soldados e veículos blindados foram enviados a principais ruas do Cairo

Centenas de manifestantes voltaram a tomar as ruas do Cairo, no Egito, na manhã deste sábado pedindo a renúncia do presidente do país, Hosni Mubarak, pelo quinto dia consecutivo.

Há informações de disparos e colunas de fumaça branca, de gás lacrimogêneo, podem ser vistas pela cidade, enquanto as forças de segurança tentam dispersar os manifestantes.

Tanques, veículos blindados e soldados foram enviados para partes do Cairo que foram palco dos maiores protestos na sexta-feira, incluindo a principal avenida da cidade, onde ficam os escritórios da televisão e da rádio do Estado.

No entanto, de acordo com o enviado especial da BBC Brasil ao Cairo, Tariq Saleh, a capital egípcia parece mostrar alguns sinais de normalidade, com pessoas caminhando pelas ruas e a retomada parcial dos serviços de telefonia celular. Na sexta-feira, os serviços de internet e telefonia celular tinham sido, aparentemente, bloqueados no país.

Segundo fontes médicas, ao menos 13 pessoas morreram em Suez e cinco morreram no Cairo em confrontos na sexta-feira, o que eleva para 26 o total de mortes ocorridas desde que os protestos se iniciaram, na terça-feira.

Novo governo

No primeiro pronunciamento desde o início da onda de manifestações, o presidente, Hosni Mubarak, anunciou na sexta-feira a dissolução do governo. Mubarak deve nomear o novo gabinete ainda neste sábado.

Em discurso transmitido pela TV estatal, Mubarak, que está no poder desde 1981, disse ainda que os protestos não estariam ocorrendo caso seu governo não tivesse introduzido liberdades civis e de imprensa no país.

Ele defendeu a atuação das forças de segurança na repressão das manifestações e afirmou que não permitiria que o Egito, país tão importante para o norte da África e o Oriente Médio, seja desestabilizado.

O discurso de Mubarak ocorreu enquanto milhares de manifestantes desafiavam um toque de recolher imposto no país nesta sexta-feira, apesar da presença de militares nas ruas. Durante a madrugada ocorreram incêndios e saques às lojas da capital.

O Exército cercou o Museu Nacional do Egito, que fica próximo da sede do partido do governo, o Partido Nacional Democrático, incendiada pelos manifestantes. A operação no museu visa proteger os tesouros históricos do país, como a máscara de ouro do faraó Tutankhamon.

Os manifestantes também cercaram os prédios do Ministério das Relações Exteriores e da TV estatal durante a noite.

Inicialmente aplicado em três cidades (Cairo, Suez e Alexandria), o toque de recolher foi estendido a todo o território egípcio no início da noite (hora local, à tarde no Brasil), refletindo uma intensificação nos protestos durante o dia.

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Image caption Locais onde têm ocorrido os protestos no Egito

Militares

A TV egípcia transmitiu a chegada ao Cairo de tropas militares e de blindados. Ao passar pelos manifestantes, muitos soldados acenavam para a multidão.

As manifestações da sexta-feira - de proporção sem precedentes na história do Egito - se seguem a três dias de protestos e foram inspiradas em uma onda de manifestações populares que culminou com a queda do presidente da Tunísia, Zine Al-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

Também na sexta, policiais tunisianos evacuaram um acampamento de manifestantes diante do escritório do primeiro-ministro Mohamed Ghannouchi, em Túnis. Eles exigiam a renúncia do governo interino e a saída de todos os aliados de Ben Ali.

O premiê voltou a pedir calma aos manifestantes e disse que seu governo continuaria no poder até a instauração da democracia no país.

No Cairo, policiais entraram em confronto com milhares de manifestantes nas ruas, usando bombas de gás lacrimogêneo e canhões d'água para dispersar a multidão, que respondeu atirando pedras, queimando pneus e montando barricadas.

A BBC Brasil acompanhou alguns embates e viu policiais à paisana baterem em mulheres que caminhavam perto da multidão.

Conforme a noite avançava, helicópteros sobrevoavam a capital e tiros eram ouvidos.

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Image caption Ao menos mil pessoas foram presas nos protestos

Estados Unidos

Em um discurso transmitido pela televisão logo depois do pronunciamento de Mubarak, o presidente americano, Barack Obama, afirmou que conversou longamente com o presidente egípcio e pediu a ele que respeite os direitos do povo egípcio e evite usar violência contra os manifestantes pacíficos. Mas, Obama também falou que os manifestantes tem a responsabilidade de se expressar de forma pacífica.

Ele pediu a Mubarak que tome "medidas concretas que avancem com os direitos do povo egípcio" e cumpra as promessas de reforma no país.

"A violência não vai tratar das queixas do povo egípcio. E reprimir ideias nunca consegue fazer eles (os manifestantes) irem embora", disse.

"Certamente, tempos difíceis virão, mas os Estados Unidos vão continuar a defender os direitos do povo egípcio e trabalhar com o governo do país para um futuro mais justo, mais livre e mais esperançoso", afirmou Obama.

Mais cedo, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que os Estados Unidos poderão revisar sua ajuda ao Egito com base no desenrolar dos eventos nos próximos dias.

O Egito é o quarto principal destinatário de ajuda americana, atrás apenas do Afeganistão, do Paquistão e de Israel.

Nesta sexta-feira, os governos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França lançaram um alerta para seus cidadãos, desaconselhando qualquer viagem não-essencial ao Egito.

Outras cidades

Em Suez, um grupo invadiu uma delegacia de polícia, roubou armas e ateou fogo ao prédio. Choques também foram registrados nas cidades de Alexandria, Mansoura e Assuã, assim como Minya, Assiut, Al-Arish e na Península do Sinai.

Há relatos de que centenas de líderes da oposição foram presos durante a madrugada. Ao menos dez pertenceriam à organização Irmandade Islâmica, banida pelo governo.

Outros relatos dão conta de que o líder da oposição e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei estaria sendo mantido em prisão domiciliar, mas a versão não foi confirmada oficialmente.

ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), chegou ao Cairo na quinta-feira para se juntar às manifestações.

Colaborou Tariq Saleh, Enviado especial da BBC Brasil ao Cairo

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