Sem policiamento, maiores cidades do Egito vivem noite de apreensão

Egípcio com faca em posto de checagem improvisado no Cairo (Reuters) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Moradores pegaram bastões e facas e organizaram grupos de vigilância nos bairros do Cairo

O clima nas maiores cidades do Egito era de muito medo e apreensão na noite de sábado com a falta de policiamento nas ruas e relatos de saques a estabelecimentos e residências por grupos armados.

O Exército enviou tropas e blindados para proteger os prédios governamentais e restabelecer a ordem. Mas não estava fazendo o policiamento, o que levou a saques e confrontos no Cairo, Alexandria e Suez.

A presença dos militares foi necessária depois que forças de segurança do país foram retiradas das ruas na noite de sexta-feira, após violentos confrontos com os manifestantes, nos piores protestos no Egito em décadas.

Na capital, Cairo, a noite de sábado foi marcada por ruas vazias após a meia-noite e os militares pedindo à população que respeitasse o toque de recolher imposto até as 8h da manhã de domingo.

O comando militar divulgou um comunicado pedindo à população que não promovesse o caos e respeitasse a propriedade alheia.

Mas, segundo a imprensa, os militares não impuseram o toque de recolher, o que levou muitas gangues e moradores de outros bairros mais pobres a saquear supermercados, lojas e residências.

Por conta disso, moradores fizeram barricadas em vários bairros para proteger suas propriedades.

Milícia

Em Zamalek, um dos bairros do Cairo de classe alta e local de várias embaixadas, jovens zeladores de prédios com bastões e facas foram para as ruas para fazer a segurança.

"O toque de recolher não vale muito, mais adiante alguns soldados conversam com a gente sem problemas, mas sem policiais. As pessoas aqui estão com medo das gangues", disse à BBC Brasil um jovem que se identificou apenas Aiman.

Havia muito nervosismo entre os jovens nas ruas. Com a ausência de policiais de tráfego, alguns tentaram organizar o pouco trânsito de carros.

Pessoas estranhas ao bairro eram paradas e questionadas sobre seus destinos.

"Para onde você vai?", perguntou à BBC Brasil Haissam ElBahry, portando um facão e acompanhado de outros jovens.

Ele se desculpou após perceber que se tratava de um jornalista estrangeiro.

"Estamos formando uma milícia para proteger a área. Escutamos há pouco que prisioneiros escaparam de prisões", disse ele.

As emissoras locais disseram que milhares de prisioneiros fugiram de duas prisões ao redor da capital.

ElBahry contou também que jovens em motos e armados com facas passavam pelas ruas do Cairo para roubar lojas.

"Uma loja de roupas e uma farmácia foram saqueadas aqui perto", afirmou.

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Image caption Museu não teve roubo, mas objetos foram quebrados e múmias danificadas

Outras pessoas disseram à BBC Brasil que viram homens usando máscaras e portando fuzis AK-47.

"Um carro passou pelo viaduto e vi quando mostravam suas armas pela janela do veículo", disse Mohammed ElHata.

Vandalismo

Durante a noite, tiroteios podiam ser ouvidos em várias áreas do Cairo e helicópteros do Exército sobrevoavam a capital para monitorar os incidentes.

Os saqueadores não atacaram somente estabelecimentos particulares, mas também prédios públicos, hospitais e até escolas.

O Museu Nacional, local que guarda preciosos artefatos de milhares de anos da história do Egito, foi atacado.

Segundo as autoridades, não houve roubos ao acervo do museu. No entanto, imagens de emissoras locais mostravam estatuetas e outros artefatos quebrados pelo chão.

Diretores do museu disseram que duas múmias foram danificadas.

Já na madrugada, os militares resolveram agir e montaram um bloqueio em diversos pontos da cidade.

Pessoas foram presas portando armas de fogo, facas, drogas e mercadorias roubadas em saques.

Na manhã deste domingo, surgiram relatos na imprensa árabe de que havia corpos de pessoas em ruas de vários bairros do Cairo, sinal da violência da noite anterior.

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