Análise: EUA tentam conduzir Egito para transição pacífica

Manifestante na praça Tahrir mostra papel com frase 'Mubarak, você caiu. Saia.' (AFP) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Manifestantes ocupam ruas do centro do Cairo há uma semana

Os Estados Unidos estão tentando conduzir o Egito para a evolução e longe da revolução, procurando um caminho do meio para a mudança no país.

Os americanos não querem simplesmente desistir de um aliado de 30 anos, um país que apoiou o tratado com Israel e que tem muita importância para a política dos Estados Unidos para o Oriente Médio.

Mas agora os Estados Unidos indicam que a saída do presidente Hosni Mubarak, imediatamente ou então mais tarde, precisa ser parte da mudança.

E é possível notar isto na mudança da linguagem dos americanos.

Na semana passada, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, afirmou que o governo egípcio era "estável e em busca de formas de responder às necessidades legítimas e aos interesses do povo egípcio".

No domingo, entretanto, ela pediu por "uma transição ordenada para um governo democrático".

Quando?

A questão agora não é se Mubarak deve deixar o poder, mas quando. Uma eleição presidencial deve ocorrer em setembro, então esta pode ser uma solução, mas a data ainda está longe para acalmar os manifestantes.

Ao mesmo tempo, foi enviada a mensagem para que os militares egípcios tenham moderação. Os Estados Unidos têm uma influência considerável neste setor.

Os americanos fornecem mais de US$ 1 bilhão (cerca de US$ 1,68 bilhão) em ajuda militar ao Egito por ano. O Exército do Egito conta com tecnologia americana.

Os tanques nas ruas do Cairo, por exemplo, são M1A1 Abrams, de projeto americano e montados no Egito.

Mas, enquanto isso, o governo americano quer que o processo de mudança comece. Isto é o que Hillary Clinton também disse no domingo.

"Queremos ver este levante pacífico do povo egípcio, para exigir seus direitos, ter uma resposta clara e sem ambiguidades do governo e então (o início de) um processo de diálogo nacional que vai levar às mudanças que o povo egípcio quer e merece."

No entanto, ela acrescentou: "Isso vai levar tempo. É improvável que aconteça de um dia para outro sem graves consequências para todos os envolvidos."

Oposição

Isto significa que deve haver um intervalo no qual uma oposição mais organizada e com bases mais amplas possa surgir.

A última coisa que o governo americano quer é que o atual grupo de oposição mais forte do país, a Irmandade Muçulmana, consiga poder político, o que seria parte das "graves consequências" citadas por Hillary Clinton.

Será interessante ver se os Estados Unidos conseguem, silenciosamente, apoio para Mohamed ElBaradei, o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ligada à ONU. Ele não tem carisma, mas está disponível.

Mas, tudo isso, mais uma vez, destaca as dificuldades que os Estados Unidos têm com seus aliados autocratas.

Em 1979, depois de apoiar durante anos o xá iraniano Reza Pahlevi, os americanos pediram por reformas no país e depois o abandonaram.

Pahlevi sabia que seu tempo no poder tinha acabado quando um porta-voz da Casa Branca na época notou que o xá tinha dado a entender que queria tirar férias. Ele nunca voltou.

A revolução egípcia tem sido bem diferente, mais parecida com as revoluções na Europa Oriental. Por isso, os Estados Unidos esperam que ela possa ser gerenciada.

Notícias relacionadas