Crise no Egito é desafio diplomático para governo Obama

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Image caption Obama tenta conciliar apoio a Mubarak com apelo popular por mudanças

A crise que se desenrola há mais de uma semana no Egito, com protestos em todo o país pedindo a saída do presidente Hosni Mubarak, representa um desafio diplomático para o governo do presidente americano, Barack Obama, dizem especialistas em relações entre os Estados Unidos e o mundo árabe.

Segundo analistas, o governo americano enfrenta o desafio de conciliar o apoio a Mubarak, importante aliado dos Estados Unidos há 30 anos, com o apelo popular por mudanças democráticas no Egito. Alguns chegam a afirmar que os Estados Unidos estão diante de um dilema entre defender os ideais americanos ou os interesses americanos.

"Por décadas os Estados Unidos deram prioridade a uma agora claramente ilusória estabilidade em detrimento dos ideais americanos", disse em um artigo Shadi Hamid, diretor de pesquisas do Brookings Institution em Doha.

Mubarak é um aliado americano em uma região considerada estratégica pelos Estados Unidos. O líder egípcio é um parceiro dos Estados Unidos na luta contra o extremismo islâmico e nas ações para conter as ambições do Irã na região, e teve participação importante nas negociações de paz entre israelenses e palestinos.

"Ele é o nosso homem no Oriente Médio", disse à BBC Brasil o ex-enviado especial à região David Newton, analista do Middle East Institute, em Washington.

Analistas afirmam que uma eventual queda de Mubarak poderia levar a uma onda de instabilidade na região e colocar em risco os interesses americanos, além de permitir a provável ascensão do grupo de oposição Irmandade Muçulmana. No entanto, o apoio ao líder egípcio seria visto como apoio a um regime não-democrático.

"Acho que devemos sinalizar a quem quer que venha a seguir que nós apoiamos a demanda que tantos egípcios expressaram, que é não apenas o fim do regime de Mubarak e de seu Partido Nacional Democrático, mas uma mudança fundamental que permita aos egípcios ter um governo mais aberto e transparente", disse Steven Cook, do Council on Foreign Relations, em uma coletiva de imprensa em Washington.

"Apoiar um regime que claramente não tem legitimidade, eu acho, no longo prazo, não nos coloca em uma posição muito boa", afirmou Cook.

Mudança de tom

De acordo com Robert Danin, também do Council on Foreign Relations, em Washington, o governo americano está respondendo à crise egípcia com uma "estratégia de dois trilhos".

"Por um lado, tentou afirmar seu contínuo apoio ao regime de Hosni Mubarak, que tem sido um amigo dos Estados Unidos - um regime que fez avançar os interesses americanos na região por um longo período - e ao mesmo tempo articular princípios condizentes com o que os manifestantes estão pedindo", afirmou Danin na coletiva de imprensa sobre a crise egípcia, em Washington.

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Image caption Mubarak é aliado americano em região estratégica

"O que está acontecendo (no Egito) vai afetar fundamentalmente os interesses americanos na região", disse Danin.

Ao longo dos últimos dias, diante da escalada dos protestos no Egito e de críticas por ter reagido com lentidão aos acontecimentos, o governo americano foi mudando de tom em suas declarações a respeito da crise.

No início dos protestos, a secretária de Estado americano falava na "parceria importante" com o Egito. No domingo, porém, já pedia uma "transição ordenada para um governo democrático".

Nesta segunda-feira, o Departamento de Estado anunciou o envio do ex-embaixador no Egito Frank Wisner ao Cairo, para se reunir com autoridades locais e reforçar o apelo por mudanças políticas que permitam a realização de eleições justas.

Futuro

De acordo com analistas, caso Mubarak permaneça no poder, o regime egípcio pode se tornar mais repressivo.

"Se ele sobreviver a isso, é provável que se torne bem mais repressivo. E não estou certo de que, sob essas circunstâncias, os Estados Unidos poderiam dar tanto apoio. Estou certo de que ele iria buscar por legitimidade em outro lugar", disse Cook.

Segundo Newton, se Mubarak permanecer no poder "as relações deverão ficar muito tensas".

No entanto, uma eventual saída de Mubarak do poder poderia abrir caminho para um governo menos alinhado com os interesses americanos. Alguns analistas nos Estados Unidos chegam a traçar um paralelo com a revolução islâmica no Irã, de 1979, quando a queda do xá Reza Pahlevi, que era apoiado pelo governo americano, deu lugar ao regime dos aiatolás.

De acordo com Newton, caso o presidente egípcio deixe o poder, os Estados Unidos perderão seu "facilitador" na região. O analista disse, porém, não acreditar em uma confrontação com um eventual novo governo no Egito.

"Não teríamos mais o papel de mediador desempenhado por Mubarak", disse Newton. "Mas também não acredito em confrontação com um novo governo."

Newton cita a assistência militar de mais de US$ 1 bilhão por ano que os Estados Unidos fornece ao Egito e que serve como uma forma de "pressão" sobre o governo.

"Caso Mubarak deixe o poder, as coisas seriam diferentes com o Egito. Mas não seria uma relação hostil", disse Newton.

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