Militares formam cordão de isolamento em torno de praça no Cairo

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Image caption Manifestante no Cairo escreve 'adeus, Mubarak' em bandeira egípcia

Milhares de egípcios estão reunidos nesta sexta-feira na praça Tahrir, no centro do Cairo, para participar de uma nova grande manifestação para pedir a renúncia imediata do presidente Hosni Mubarak.

Muitos dos manifestantes passaram a noite no local para dar início ao que está sendo chamado de "dia da saída" do presidente.

Militares formaram um cordão defensivo em volta da praça Tahrir, no centro do Cairo, onde se concentram os protestos populares contra o presidente, que já duram 11 dias.

O correspondente da BBC no Cairo Jim Muir afirma que depois dos violentos confrontos ocorridos na praça nos últimos dois dias, o Exército aumentou significativamente a sua presença no local.

Apesar de os militares estarem usando até arame farpado para cercar a praça, Muir afirma que os soldados estão deixando as pessoas entrar normalmente no local.

O repórter da BBC afirma que, ao menos por enquanto, os manifestantes pró-Mubarak parecem ter deixado a praça.

Para Muir, o clima no local é bastante calmo, com pessoas sentadas ao sol e outras dormindo. "O medo de um ataque iminente diminuiu", diz.

Mesmo com o clima mais tranquilo, Muir diz que a praça Tahrir está totalmente coberta de entulho, devido aos choques ocorridos entre partidários e opositores de Mubarak no centro do Cairo.

A ONU estima que mais de 300 pessoas já tenham morrido desde o início dos protestos no Egito, no dia 25 de janeiro.

Transição

O governo dos Estados Unidos diz já ter aberto diálogo com lideranças políticas do Egito sobre planos de uma transição imediata de poder no país. Uma das opções consideradas seria Mubarak ceder o cargo para um conselho constitucional formado por três pessoas.

Segundo o correspondente da BBC em Washington Mark Mardell, autoridades americanas não negam esta possibilidade, mas deixam claro que diferentes alternativas estão sendo consideradas, e que qualquer decisão deve ser tomada pelo povo egípcio.

Nessa quinta-feira, em uma entrevista à rede de TV americana ABC, o presidente egípcio - no cargo há quase 30 anos - disse que gostaria de deixar o poder imediatamente, mas que não o fará porque acredita que isso mergulharia o país no caos.

Mubarak afirmou ainda que ficou abalado com os protestos violentos no centro do Cairo. “Fiquei muito decepcionado com os eventos de ontem (quarta-feira). Não quero ver egípcios brigando uns com uns outros”, afirmou Mubarak.

Horas antes, enquanto os confrontos entre manifestantes pró e contra o governo do Egito tomavam conta do centro do Cairo, o novo vice-presidente do país, Omar Suleiman, disse que convidou a Irmandade Muçulmana para dialogar.

Entretanto, segundo disse Suleiman em entrevista à TV estatal egípcia, os membros do grupo estariam “hesitantes" em relação ao convite.

A Irmandade Muçulmana, o maior e mais organizado grupo de oposição no Egito, é oficialmente proibida, mas tolerada pelo governo, e seus integrantes concorrem em eleições como candidatos independentes.

Jornalistas

Os protestos violentos no Cairo e em Alexandria foram marcados também por reclamações feitas por vários jornalistas estrangeiros que teriam sido hostilizados e agredidos por manifestantes pró-Mubarak.

Outros repórteres foram detidos pelas forças de segurança ou tiveram seus equipamentos confiscados.

Entre os repórteres detidos estavam profissionais brasileiros. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil protestou na quinta-feira contra a detenção dos jornalistas brasileiros Corban Costa, da Rádio Nacional, e Gilvan Rocha, da TV Brasil, que estavam no Cairo - onde foram detidos, liberados e depois encaminhados ao aeroporto para retornar ao Brasil.

O Itamaraty diz esperar que "as autoridades egípcias tomem medidas para garantir as liberdades civis e a integridade física da população e dos estrangeiros presentes no país."

* Colaborou Tariq Saleh, enviado especial da BBC Brasil ao Cairo

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