Mineiros enfrentam nuvens de gases tóxicos para extrair enxofre de vulcão em Java

Mineiros no vulcão Ijen, na Indonésia Direito de imagem TIMOTHY ALLEN BBC
Image caption Coleta manual de enxofre em vulcão desapareceu em outros lugares

Palitos de fósforo e açúcar refinado estão entre os produtos fabricados a partir do enxofre coletado à mão por mineiros em um vulcão em atividade na Indonésia, em meio a altas temperaturas e nuvens de gases tóxicos.

Os tradicionais mineiros de enxofre do leste da ilha de Java trazem consigo as marcas de seu trabalho – pulmões envenenados e peles riscadas com queimaduras e cicatrizes -, sério concorrente ao título de trabalho mais perigoso do mundo.

Centenas de homens trabalham no coração do vulcão Ijen, no leste de Java. A cada dia, eles coletam pedaços amarelos de enxofre que se solidifica ao lado do lago ácido da cratera.

Após ser processado, o enxofre é usado no processo de refino de açúcar, para fazer palitos de fósforo e fertilizantes e para vulcanizar borracha em fábricas na Indonésia e em outras partes do mundo.

O trabalho dos mineiros é mostrado no programa sobre montanhas da série da BBC Human Planet, que vai ao ar na Grã-Bretanha nesta semana.

Sem proteção

Image caption Mineiros no vulcão Ijen enfrentam nuvens tóxicas para coletar enxofre

As imagens captadas pela BBC mostram os mineiros levando cargas com dezenas de quilos por 200 metros na saída da cratera e depois para baixo nas encostas de fora do vulcão até uma estação de pesagem, num trajeto que eles fazem várias vezes ao dia.

“Há várias montanhas grandes, mas somente uma nos dá o enxofre de que precisamos”, diz o mineiro Sulaiman, de 31 anos, que vem trabalhando na cratera há 13 anos.

Os trabalhadores têm pouco equipamento de proteção além de um pano molhado que usam para cobrir o nariz e a boca. Luvas e máscaras de gás são um luxo inacessível para quem ganha entre US$ 10 e US$ 15 por dia (entre R$ 16,70 e R$ 25).

Nos últimos 40 anos, 74 mineiros morreram no local após serem tomados pela fumaça que pode de repente surgir num turbilhão a partir de fissuras na rocha.

As nuvens tóxicas não são vapor, mas sulfeto de hidrogênio e dióxido de enxofre em concentração tão alta que queimam os olhos e a garganta e podem até mesmo dissolver os dentes dos mineiros.

Durante as filmagens, a equipe da BBC, protegida por máscaras antigases, foi envolvida em uma nuvem tóxica com concentração dos gases 40 vezes o nível considerado seguro pela legislação britânica – não existem limites legais para os mineiros.

Partículas corrosivas presentes nos gases entraram nas câmeras usadas pela equipe, que quebraram ao final das filmagens.

Método quase extinto

Direito de imagem TIMOTHY ALLEN BBC
Image caption Mineiros carregam até o dobro de seus pesos em enxofre

O método de mineração de enxofre usado no vulcão Ijen está praticamente extinto, segundo o vulcanologista Clive Oppenheimer, da Universidade de Cambridge.

“Até o fim do século 19, havia minas de enxofre em países com vulcões como a Itália, a Nova Zelândia, o Chile e a Indonésia”, observa. Segundo Oppenheimer, a grande maioria dessas minas foram fechadas por conta de erupções ou pelo aparecimento de novos processos de extração.

“Ainda há minas de enxofre em vulcões nos Andes, mas a extração é mecanizada”, diz Oppenheimer.

Um respiradouro próximo à base do lago na cratera do vulcão é usado para a operação de mineração. A água na cratera é tão ácida que é capaz de dissolver roupas, corroer metal e provocar problemas respiratórios.

Tubos são colocados nas fissuras na rocha para extrair o enxofre de dentro da montanha. Ele tem uma coloração vermelha quando retirado, mas fica amarelo ao esfriar e se solidificar.

Os mineiros quebram as pedras de enxofre solidificado em pedaços e os colocam em cestos que são carregados pela escalada de 200 metros para fora da cratera.

Image caption Mineiros trabalham no vulcão praticamente sem nenhuma proteção

Cada homem carrega até o dobro de seu próprio peso da cratera até a estação de pesagem no caminho do pé da montanha.

O trabalho deixa marcas em seus corpos. Mas os corpos dos mineiros também sofreram adaptações por conta do trabalho. Muitos deles conseguem ficar sem respirar por longos períodos e têm músculos dos ombros superdesenvolvidos após anos carregando os cestos pesados com enxofre pela montanha.

“Nossas famílias se preocupam quando estamos trabalhando. Elas dizem que isso pode encurtar nossas vidas”afirma Hartomo, de 34 anos, mineiro de enxofre há 12.

“Eu faço isso para alimentar minha mulher e meu filho. Nenhum outro trabalho paga tão bem”, afirma.

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