Médicos são suspeitos de negligência em morte de chicoteada em Bangladesh

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Image caption Familiares dizem que a jovem foi estuprada pelo primo

Três médicos estão sendo investigados por negligência pelas autoridades em Bangladesh depois de terem dito que não viram ferimentos em um exame póstumo da adolescente Hena Begum, que morreu após receber cerca de 80 chibatadas.

Hena, de 14 anos, foi acusada por um tribunal religioso de ter mantido uma relação sexual com seu primo de 40 anos de idade, que era casado.

De acordo com testemunhas, Hena foi chicoteada pelo menos 50 vezes por dia depois de ter sido supostamente estuprada pelo primo em 23 de janeiro. A família só pôde levá-la ao hospital dois dias depois, mas ela não resistiu.

No entanto, os médicos que fizeram um exame póstumo no hospital de Shariatpur, a cerca de 60 quilômetros da capital Daca, disseram que não encontraram sinais de ferimentos na menina.

‘Menos experiente’

O corpo de Hena foi exumado na última terça-feira por ordem da Suprema Corte de Bangladesh. A segunda autópsia concluiu que ela morreu por causa dos sangramentos internos e de septicemia (infecção generalizada) causada pelos ferimentos em seu couro cabeludo, abdômen, costas, peito, braços e pernas.

Depois da apresentação do resultado, o juiz Shamsuddin Chowdhury ordenou que o Ministério da Saúde investigasse os três médicos que fizeram o primeiro exame, por suspeita de negligência médica.

O juiz levantou a possibilidade de que eles tenham sido pressionados a omitir as evidências de ferimentos.

Segundo o jornal The Daily Star de Bangladesh, a corte intimou o cirurgião Mohammad Sarwar, uma enfermeira e outros médicos que atenderam Hena no hospital de Shariatpur para o inquérito.

Perguntado sobre a diferença dos resultados das duas autópsias, Sarwar se justificou dizendo que sua equipe em Shariatpur era “menos experiente” do que os médicos em Daca.

Sentença

Hena Begum foi acusada de ter mantido uma relação sexual com seu primo de 40 anos de idade, que era casado. Ele foi condenado a receber duzentas chibatadas, mas conseguiu fugir após as primeiras.

A adolescente chegou a ser levada para um hospital local, mas morreu seis dias após ter sido internada.

O caso teve grande repercussão no país e provocou protestos de moradores de Shariatpur. Relatos de testemunhas e de familiares da menina na mídia de Bangladesh dizem que Hena, na verdade, teria sido raptada e estuprada pelo primo.

O imã (clérigo muçulmano) Mofiz Uddin, responsável pela fatwa (sentença) contra Hena, e outras três pessoas foram presas. O caso está sendo investigado como assassinato.

Mahbub Alam, de 35 anos, o primo de Hena, também foi preso após 9 dias foragido. A família da menina diz que Alam a atacou na noite anterior a sua punição. Em seguida, sua esposa teria reclamado com o conselho religioso local, dizendo que os dois estavam tendo um caso.

O juiz Chowdhury ordenou que o Ministério de Assuntos Religiosos interrompa o envio de fundos a todas as madrassas (seminários islâmicos) e mesquitas que praticam os fatwas, para que “nenhuma fatwa aconteça novamente nesta república”.

A sentença contra Hena Begum foi a segunda morte provocada por uma sentença ligada à sharia (lei islâmica) desde que a prática foi proibida pela Corte Suprema de Bangladesh.

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