Protestos no Egito

Após renúncia, Cairo tenta voltar à rotina; futuro do Egito é debatido

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    Egípcios comemoram na Praça Tahrir, no Cairo, a renúncia do presidente Hosni Mubarak, anunciada nesta sexta-feira. O Conselho das Forças Armadas governará o país.
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    O vice-presidente Omar Suleiman anunciou na televisão estatal egípcia a renúncia de Mubarak, que viajou para a cidade egípcia de Sharm El-Sheik horas antes.
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    No início da sexta-feira, o Exército do Egito anunciou que revogaria o estado de emergência vigente no país e que endossava o plano de Mubarak de transferir poderes ao vide Omar Suleiman.
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    Em pronunciamento à nação na última quinta-feira, Hosni Mubarak disse que não aceitaria interferências externas e que permaneceria no governo até as eleições em setembro.
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    O pronunciamento de Mubarak causou ira e frustração entre os manifestantes, que agitaram sapatos nas ruas como forma de insulto ao presidente.
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    Desde o dia 25 de janeiro, os egípcios vão às ruas pedir a renúncia de Mubarak e a garantia de que seu filho, Gamal Mubarak, não se candidatará nas próximas eleições.
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    A Praça Tahrir vinha sendo o centro das manifestações, que foram inspiradas pelos protestos na Tunísia que antecederam, em janeiro, a queda do presidente Ben Ali.

No dia seguinte à renúncia do presidente Hosni Mubarak, a vida na capital egípcia, Cairo, começa a voltar ao normal, enquanto o futuro político do país começa a ser discutido, depois de quase 20 dias de protestos e violência.

Na praça Tahrir, ponto principal de concentração dos protestos iniciados em 25 de janeiro, centenas de pessoas continuavam acampadas neste sábado. Milhares de manifestantes passaram a noite no local, comemorando a saída do presidente.

O Exército egípcio começou neste sábado a retirar as barricadas dos acessos à praça, removendo carros queimados que serviam de barreiras. As Forças Armadas mantêm tanques e veículos blindados nas ruas, principalmente em frente aos prédios do governo e de outras instalações importantes.

O clima ainda é de comemoração por parte dos cidadãos. Muitas bandeiras do Egito pode ser vistas nas janelas dos prédios e penduradas em árvores. O comércio voltou a abrir normalmente e o policiamento foi retomado, com a circulação de viaturas nas ruas do Cairo.

As emissoras de TV locais já realizam debates discutindo o futuro político do Egito, assim como as reformas que o Conselho das Forças Armadas - que assumiu o controle do país após a saída de Mubarak - pode realizar.

Diversos grupos já propõem mudanças na Constituição, nos artigos referentes ao processo político e às liberdades civis. A forma de governo do país - com a definição entre presidencialismo e parlamentarismo - também deve entrar em discussão.

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Futuro de Mubarak

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Egípcia lê jornal após passar a noite na praça Tahrir, no Cairo

Mubarak continua com sua família em seu palácio no resort de Sharm el-Sheikh, no Mar Vermelho, sob forte esquema de segurança montado pelo Exército.

Segundo o correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne, ainda não se sabe se o ex-presidente permanecerá no Egito. Também é incerto o futuro do vice-presidente, Omar Suleiman, e de outros civis que mantiveram seus cargos do governo anterior.

Depois da renúncia de Mubarak, nessa sexta-feira, os poderes presidenciais ficaram com o Conselho das Forças Armadas, liderado pelo ministro da Defesa, Mohamed Hussein Tantawi.

O Alto Conselho militar afirmou que está preparado para suprir as “demandas legítimas” do povo egípcio.

Por enquanto, não se sabe quais serão os próximos passos do novo governo. Os militares também disseram que encerrariam o estado de emergência que vigora no país há 30 anos.

“Estamos cientes da magnitude da situação e da gravidade das demandas do povo em implementar mudanças radicais. O conselho está estudando esse tema com a ajuda de Deus em um esforço de alcançar as aspirações de nosso povo”, disse o porta-voz das Forças Armadas.

O porta-voz agradeceu a Mubarak “pelo que ele nos deu durante seu tempo, em guerra e paz, e por sua decisão de colocar os interesses do país em primeiro lugar”.

Jornais

A mudança no poder egípcio também se reflete na mídia do país. Segundo o correspondente da BBC Sebastian Usher, diários que antes defendiam Mubarak agora saúdam a mobilização popular e a saída do presidente.

A manchete deste sábado do jornal Al Ahram, o principal do país e anteriormente tido como pró-Mubarak, era: "O sangue dos mártires deram à luz um novo Egito". Na foto principal, aparece uma mulher emocionada, vestindo um "hijab" branco.

A mídia de outros países árabes, principalmente os jornais mais radicais, também saudaram a saída do presidente. O diário pan-árabe Al-Quds Al-Arabi, editado em Londres, dizia simplesmente: "Obrigado, povo egípcio".

O editor do jornal, Abdel Bari Atwan, foi além e saudou o "colapso do eixo de moderação" no Oriente Médio, além do "fim da dominância de Israel, que fez os regimes árabes se ajoelharem perante as suas autoridades".

Na Jordânia, a agência oficial de notícias afirma que o governo do país respeita a escolha feita pelo povo egípcio, afirmando que existe grande confiança de que as Forças Armadas garantirão a estabilidade do país.

Já a imprensa estatal do Iêmen, que também registrou protestos populares em favor de reformas democráticas, disse que o governo do presidente Ali Abdallah Saleh diz esperar que os militares egípcios consigam garantir tranquilidade no país.

Comemorações

O clima era de "vitória" nessa sexta-feira nos bairros do Cairo, após o anúncio da saída de Mubarak. Houve buzinaço, pessoas dançando nas ruas, nas janelas de carros, prédios e casas.

Um dos expoentes da oposição, Mohamed ElBaradei, ex-chefe da Agência Atômica da ONU, disse à BBC que sentiu "alegria e euforia" porque, “após anos de repressão, o Egito finalmente foi libertado e colocou-se no caminho para um país de democracia e justiça social”.

Questionado pela BBC sobre a cúpula militar que está no poder no país, ElBaradei disse esperar que “ela divida o poder com os civis durante o período de transição. Espero que tenhamos um conselho presidencial, um governo de unidade nacional e tempo suficiente – talvez um ano – para nos prepararmos para eleições genuinamente livres”.

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Bens congelados

Apenas meia hora depois do anúncio da renúncia, a Suíça informou que vai instruir seus bancos a congelar eventuais bens de Mubarak e sua família.

Medida semelhante havia sido tomada pelo governo suíço com relação aos bens do ex-presidente tunisiano Zine Al-Abidine Ben Ali e do marfinense Laurent Gbagbo, que tenta permanecer no poder na Costa do Marfim.

Não se sabe quanto dinheiro Mubarak tem no exterior, mas especula-se que a quantia transferida pelo ex-presidente para fora do Egito chegue a bilhões de dólares, e parte disso estaria guardada na Suíça.

Na última quinta-feira, em um pronunciamento pela televisão, Mubarak havia rejeitado renunciar, mas admitira transferir alguns poderes para seu vice.

Reações

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta sexta-feira que o Egito nunca mais será o mesmo depois do movimento que levou à queda de Hosni Mubarak e que a renúncia do líder marca o início da transição.

“O povo do Egito falou, suas vozes foram ouvidas, e o Egito nunca mais será o mesmo”, disse o presidente, em um pronunciamento na Casa Branca.

Segundo Obama, a renúncia de Mubarak não encerra a transição no país, e haverá “dias difíceis” pela frente.

“Ao renunciar, o presidente Mubarak respondeu à fome de mudança do povo egípcio. Mas este não é o fim da transição no Egito. É um começo”, afirmou o presidente americano.

Já o ministro de Relações Exteriores britânico, William Hague, afirmou que qualquer tentativa de se "voltar o relógio" no Egito seria profundamente prejudicial para a estabilidade e coesão no país.

Ele também disse que a saída de Mubarak deve "sacudir" os israelenses e palestinos para que se engajem em novos esforços para chegar a um acordo de paz.

* Colaborou Alessandra Corrêa, da BBC Brasil em Washington

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