Simpatizantes de Mubarak temem ‘futuro incerto’ no Egito

Image caption Frequentadores do shopping City Star se preocupam com 'caça às bruxas' de partidários de Mubarak

No bairro de Heliopolis, nos arredores do Cairo, egípcios de classe alta vivem dias de desconfiança e incertezas sobre o futuro do país após a renúncia do presidente Hosni Mubarak, na última sexta-feira.

Depois de 18 dias de protestos, Mubarak deixou o poder e entregou o governo para o comando das Forças Armadas, que neste domingo dissolveu o Parlamento e suspendeu a Constituição.

Heliopolis é um dos bairros da capital egípcia que concentra a população de maior poder aquisitivo, uma classe alta vista pela maioria da população como a elite dominante, a parcela da sociedade ligada ao antigo governo.

O empresário Omar al-Shantawy, de 54 anos, é simpatizante de Mubarak, e disse que ficou incrédulo com a saída do agora ex-presidente.

“Ele era um líder que cuidava do país, que trouxe estabilidade dentro de uma região de instabilidades. Não merecia ter sido humilhado daquela forma, para o mundo inteiro ver”, disse o empresário à BBC Brasil.

“Ele trouxe estabilidade e desenvolvimento para o país. Basta olhar para como era o Egito há 30 anos e como está hoje”, afirmou o empresário, com ar de revolta.

Al-Shantawy disse que não acredita que a oposição possa administrar o Egito de forma segura e teme pelo futuro do país.

“Eles não têm experiência, não tem firmeza nem conhecimento para gerir o Egito. Eles queriam mudanças, mas as mudanças tinham de ter sido feitas gradualmente. Mas preferiram o caos.”

Investimentos

Segundo dados do Banco Mundial, a economia do Egito cresceu acima dos 5% em 2010, e é a segunda maior do mundo árabe, atrás somente da Árabia Saudita.

Alguns analistas dizem que o governo de Mubarak trouxe obras e investimentos estrangeiros em setores antes carentes, como comunicações e indústrias, além de realizar obras de infra-estrutura.

Mas críticos de Mubarak afirmam que a corrupção, concentração de riquezas nas mãos da classe dominante e a desigualdade aumentaram nas três décadas de seu governo, deixando na pobreza uma parcela ainda maior da população.

Segundo dados da ONU, 20% dos mais de 84 milhões de egípcios vivem abaixo da linha de pobreza. Além disso, 40% da população vive com US$ 2 ou menos por dia. A taxa de desemprego, segundo o Banco Mundial, está nos 10%.

City Stars

Segundo os egípcios, Heliopolis foi construída para ser uma área elitizada, com residências e prédios de luxo, e para abrigar os mais abastados, que buscavam sair das áreas centrais da cidade.

O bairro também abriga academias e quartéis militares, o palácio presidencial e o City Stars (cidade das estrelas, em inglês), um complexo que reúne um imenso shopping center e um hotel de luxo.

Embora diversas classes sociais passem pelo local, o City Stars é uma realidade distante para a população mais pobre.

O engenheiro Magdy al-Wahab, de 46 anos, disse que teme que a economia sofra com a crise política e o vácuo criado com a saída de Mubarak.

“O Egito não pode jogar por terra as conquistas que foram atingidas nos últimos anos.”

Al-Wahab enfatizou que entende que deva haver mais inclusão social e empregos, mas acha que isso não será atingido com um governo controlado por islâmicos conservadores, em referência à Irmandade Muçulmana, o maior grupo de oposição.

“A Irmandade Muçulmana só trará confusão e discórdia no país.”

Caça às bruxas

Dona de uma boutique no City Stars, a empresária Noor S., de 42 anos, teme que a classe alta seja hostilizada a partir de agora por terem a imagem associada a Hosni Mubarak.

“Espero que não aconteça uma caça às bruxas às pessoas que eram partidárias do Mubarak”, afirmou.

“Eu concordo que não havia liberdades políticas e havia problemas de democracia. Mas o Egito vive uma situação atípica, de extremismo e terrorismo de grupos islâmicos. Com Mubarak tínhamos a certeza de segurança.”

As manifestações mobilizaram a classe média, trabalhadores, ativistas pró-democracia e partidos de oposição contra a corrupção e desemprego, reivindicando reformas políticas e econômicas.

Muitos dos protestos acusaram a elite de se beneficiar de favores do governo de Mubarak.

Noor, que mora em um condomínio de luxo perto do City Stars, disse que ainda há o temor nas ruas de Heliopolis de que o povo use de violência contra os moradores do bairro.

“Meus vizinhos também sentem receios e medo. Eu espero que um futuro governo não faça o Egito voltar para trás. Se não precisamos de alguém como Mubarak para liderar o país.”

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