Manifestantes voltam à praça Tahrir para pedir melhores salários

Tahir 14 de fevereiro/AP Direito de imagem BBC World Service
Image caption A polícia isola os manifestantes na praça Tahir

Grupos de manifestantes egípcios começaram a retornar nesta segunda-feira à praça Tahir, no Cairo, horas após o Exército ter evacuado o local, que tem sido centro dos protestos no país contra o presidente do país, Hosni Mubarak.

Mas agora, os protestos passaram a incluir reivindicações trabalhistas. Cerca de dois mil empregados de empresas públicas e privadas, entre policiais, bancários, funcionários da indústria do turismo e do transporte, se dirigiram ao local para exigir melhores condições de trabalho e, ao mesmo tempo, mostrar solidariedade com os protestos anti-governo.

A maioria dos manifestantes que protestavam contra o governo tinha deixado a praça no domingo, quando o novo Conselho Militar que comanda o país anunciou a dissolução do Parlamento e a suspensão da Constituição.

Nesta segunda-feira, o Exército pediu por meio de um comunicado à TV que os trabalhadores egípcios ajudem a recuperar a economia do país, evitando greves.

Um porta-voz militar disse que “as greves, neste momento delicado, levam a resultados negativos” e pediu para que os “cidadãos e sindicatos desempenhem suas obrigações”.

Polícia

Após o meio-dia (horário local, 08h00 de Brasília), um grupo de cerca de 2 mil pessoas chegou à praça, bloqueando o trânsito e exigindo a saída de outros integrantes do governo que eram ligados a Mubarak.

Perto da praça, policiais fizeram um protesto após uma passeata. Alguns deles carregavam fotos de colegas supostamente mortos nos confrontos com manifestantes, em que dezenas de pessoas morreram e mais de 1.500 ficaram feridas. Um cartaz carregava a frase: "Estas também são vítimas do regime".

No domingo, a polícia egípcia também foi às ruas para protestar por melhores salários, benefícios, redução na jornada de trabalho e que houvesse mais respeito à instituição.

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Image caption Várias categorias de trabalhadores egípcios se mantêm em greve

Centenas de oficiais, policiais de menor patente e pessoal administrativo da polícia marcharam até o Ministério do Interior, onde foram impedidos pelo Exército de entrar no prédio.

Segundo eles, um oficial da polícia ganha cerca de US$ 85 por mês e trabalha entre 12 a 15 horas por dia. Eles disseram que eram ameaçados de prisão caso se recusassem a trabalhar fora do horário, alem de pagar por transporte para ir ao trabalho.

Oficiais do Exército também tiveram que intervir para que a polícia encerrasse o protesto.

Ziad Moussa, analista do Centro Al Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos do Cairo, disse à BBC Brasil que a força policial sempre foi composta, em sua maioria, por funcionários com baixos salários e péssimas condições de trabalho.

"Essa instituição deverá ser uma das primeiras a passar por reformas. O Exército não poderá ficar nas ruas para fazer o trabalho da polícia. As reivindicações da polícia são legítimas", falou ele.

Moussa também disse que o governo deve priorizar a polícia para recuperar a imagem manchada da instituição - com acusações de corrupção e brutalidade. Ao contrário do Exército, a polícia egípcia não é bem vista pela população.

"O governo e militares devem intermediar um pacto entre polícia e os egípcios. Não fazendo isso, será uma irresponsabilidade", completou.

Em seu protesto nesta segunda, os policiais acusaram oficiais de alto escalão de manchar a corporação. Eles também alegaram que foram obrigados a reprimir as manifestações antigoverno sob pena de prisão.

Em seu protesto de domingo, os policiais marcharam também até a praça Tahir, no centro do Cairo, onde os ativistas pró-democracia estavam acampados, girtando slogans falando que "policia e população estão unidos".

Eles foram vaiados pelas pessoas, que exigiram que se retirassem do local. Os militares fizeram um cordão de isolamento para separar os dois lados.

Greves

Os militares egípcios também tentam mediar protestos de algumas categorias de funcionários públicos que planejam greves para pressionar pela remoção de seus chefes que, segundo eles, eram peças do antigo regime.

No domingo, bancários do Banco Nacional do Egito fizeram um protesto que exigia a demissão do diretor-geral da instituição, Tarek Amer, acusado de ser aliado do ex-presidente Hosni Mubarak, que renunciou após 18 dias de intensos protestos populares.

Centenas de funcionários bloquearam a entrada da sede do banco, e impediram que Amer e outros dois assistentes entrassem no prédio. Eles alegaram que Mubarak colocou aliados em cargos de poder no banco com altos salários.

O Exército teve que intervir para garantir a segurança no local. Um oficial militar negociou a saída do executivo em um carro que havia sido cercado pelos manifestantes. Amer prometeu que renunciaria ao seu cargo, segundo a mídia estatal.

Os protestos de bancários obrigou o governo a anunciar o fechamento dos bancos até esta quarta-feira.

Houve também protestos de bancários dos estatais Banco de Alexandria e Banco do Egito pelos mesmos motivos, que também exigiram uma intervenção do Exército.

Segundo o governo, o Egito perdeu mais de US$ 6 bilhões durante os 18 dias de protestos, que paralisou o turismo e outros setores da economia.

De acordo com a emissora de TV estatal do país, os militares tiveram que se reunir nesta segunda-feira com outras categorias profissionais para impedir greves que exigem, entre outre outras reivindicações, melhores salários e a remoção de chefes ligados ao partido político de Mubarak, o Partido Nacional Democrático (PND).

O governo já havia anunciado que sua prioridade era restabelecer a segurança no país e reativar a economia. Mas jornais egípcios falaram em novas greves de outras categorias profissionais de servidores públicos, como os de ferroviários, mídia e correios.

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