Como passar mal

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Em primeiro lugar, conforme dizia Jack o Estripador, vamos por partes. Não estou falando em passar muito, muito, muito mal. Apenas o suficiente para que o peso dos anos e a leveza das defesas do organismo lhe deixem, ou, melhor dizendo, me deixem prostrado.

Em casa, frise-se. Com ambulância e hospital no meio dá bobagem. Um médico e uma chegadinha para ver o que há, tudo bem, embora saia caro.

Se der pé, arrastar-se ou pegar um táxi até a clínica, onde o que ainda esta de pé (não é muito, infelizmente, do serviço nacional de saúde) um GP - é o clínico geral -, depois de uma horinha ou por aí de espera, lhe atenderá com sua ficha técnica aberta em seu moderno computador dando os antecedentes de suas visitas anteriores e os dados vitais de suas mazelas.

Mazelas. Perturbações patológicas. Quem diria que você – eu, você, nós – acabaríamos nessa, não é mesmo?

Acabou-se o que era doce. Doce, ou acre-doce, era aquela pontinha de febre e o começo de gripe que nos deixava (oquêi, que me deixava) em casa, matando aula, ou cabulando e gazeteando, se é para recuar bastante no tempo, tomando muito líquido, ou seja limonada, e os mais recentes gibis.

Ficar doente era assim. Acamado no poltronão da sala com um copão de refresco numa das mãos e as mais recentes aventuras do Capitão Marvel na outra. Às vezes, vinha o farmacêutico chamado pelo telefone e dava uma injeção. Pouco importava de quê. Em geral chamava-se Zé da Farmácia e torcia, como eu, pelo Botafogo. Manjava de seu ofício. Não doía nada e depois ele ficava um tempinho de papo com a doméstica comentando, por certo, as agruras da vida.

Passar mal exige uma condição essencial; só no país e em língua nossa. Multiculturalismos fora. Já passei mal em diversos países. Foi chato. Recomendo Portugal para se passar ao menos razoavelmente mal. Mas sem exageros.

Nunca passe mal em Paris ou Nova York, que, além de sair por uma fortuna, piora consideravelmente o quadro clínico geral. Lembremos que o estado de mente e alma, caso o paciente as tenha, é vital em males que prostrem apenas e não sejam meio caminho do revertere adlocum tuum daquele samba de breque.

Prostrado andei. Ou melhor, prostrado arrastei-me e acamei-me ou poltronei-me por algumas semanas. Às vezes, cheguei mesmo a me sentir “prostado”, reformando-me a mim mesmo gráfica, física e psicologicamente.

Se alguém quiser ir nessa, dou logo o mapa da perigosa mina: passar 50 anos fumando pelos menos 2 maços de cigarro por dia. O enfisema, na melhor das hipóteses, chegará com seus bronquíolos terminais, a galope, como o caubói que montava o alazão da marca de cigarros que eu escolhera para me encasular durante semanas em casa.

Casa. Da sala para o quarto. Do quarto para a sala. Gata só olhando. Todos os discípulos de Heródoto (ou é Hipócrates? Continuo algo confuso) que me assistiram, no sentido que deram uma espiada em mim, sugeriram uma coisa diferente. Deles, cansei. Continuei fazendo o revezamento casa, sala e, ia me esquecendo, a cozinha com o incomparável microondas.

Passar mal é tédio. Também. Antes fosse mais esse que o resto dos sintomas. Passar mal cansa. A única vantagem de se passar mal e ficar em casa (acamado, empoltronado, como já disse) é que tudo fica reduzido a uma essência também enfadonha. Não deixa de ser uma maneira radical de se enfrentar as notícias que o mundo lá fora dá de si.

Egito, Tunísia, Jordânia, Assange, Beyoncé. Tudo e todos de uma chatice única. De mínima importância se comparados à minuciosa exploração do nada fazer. Isso é válido para todas as séries de TV que eu acompanho, ou acompanhava, e as braçadas (haja fôlego) que dava nos mares revoltos da informática.

Até os e-mails adquirem um jeitão daquele célebre conto do vigário do suposto general nigeriano querendo receber uma herança. Livro? Boa ideia. Mas a cabeça é a segunda coisa na desordem física que o distúrbio físico leva.

Fica-se, então, vagando pelos cantos na tal rotina: sala, quarto, etc. Em circunstâncias menos lamentáveis, poder-se-ia (mesóclise é sinal de febre) chamar de corpo isso que tento carregar. A alma à espreita atrás. Traiçoeira. Pronta para dar o bote fatal, final.

Assim como vem sendo, eu preferi sair de campo e levar minha bola pra casa. Eu quero é um bom resfriado dos antigos e o Zé da Farmácia fervendo na boca do forno sua caixinha metálica de injeção. Convenhamos, passar mesmo, bem ou mal, só o passado passa. E passar mal não deixa de ser dar uma passada pelo passado. O resto fica rondando em torno da gente. Feito fantasma.

Às vezes, com sorte, passam no passado, naquele cineminha poeira que, no escuro, levamos conosco a vida inteira, em cópias vagabundas mas preciosas, sessões contínuas com desenho do Pernalonga, comédia dos Três Patetas e filme em série do Buck Rogers.