Polícia dispersa manifestantes à força no Bahrein durante a madrugada

Policiais dispersam manifestantes em praça de Manama, capital do Barein Direito de imagem AFP
Image caption Policiais invadiram a praça no centro de Manama antes do amanhecer

Forças de segurança do Bahrein dispersaram na madrugada desta quinta-feira milhares de manifestantes que protestavam contra o governo no centro de Manama, capital do país.

Centenas de policiais da tropa de choque entraram na praça onde se concentravam os manifestantes antes do amanhecer na quinta-feira usando bombas de gás lacrimogêneo e golpes de bastão.

Segundo grupos de oposição, pelo menos duas pessoas morreram durante a operação policial e uma centena ficou ferida.

Os manifestantes que pediam uma ampla reforma política no país vinham acampando na praça desde a terça-feira.

Durante a semana, outras duas pessoas já haviam morrido e dezenas ficaram feridas em confrontos.

Ibrahim Sherif, do partido secular Waad, disse à BBC que a polícia agiu sem qualquer aviso por volta das 3h (22h de quarta-feira em Brasília).

“Ao longo de todo o dia havia boatos de que teríamos outras 24 horas, mas o ataque veio sem aviso”, afirmou.

“Havia centenas de mulheres e crianças acampadas aqui. As pessoas dormiam em barracas. Agora há uma densa névoa de gás lacrimogêneo e essas pessoas podem estar presas aqui, inalando esse gás”, disse.

Sherif disse ter visto ao menos cem policiais em um dos lados da praça e centenas de pessoas fugindo para as ruas laterais.

“Temos duas mortes confirmadas – uma pessoa de 65 anos e outra mais jovem – e uma pessoa em estado grave”, afirmou o líder opositor. Segundo ele, ambulâncias com pessoas feridas chegavam a todo minuto no principal hospital de Manama, Salmaniya.

Segundo ele, algumas crianças foram separadas dos país durante a confusão provocada pela invasão da praça pela polícia.

Preocupações

Antes da invasão policial à praça, os Estados Unidos expressaram preocupações com a violência no país e pediram moderação e respeito aos “direitos universais de seus cidadãos” e a “seus direitos a protestar”.

O Bahrein é um importante aliado americano no Oriente Médio e abriga uma base da Quinta Frota Naval dos Estados Unidos.

Na quarta-feira, o porta-voz da Casa Branca Jay Carney disse que os Estados Unidos estão “acompanhando de muito perto os eventos no Barein e em toda a região”.

As autoridades do Bahrein disseram que não tiveram opções a não ser invadir a praça para dispersar os manifestantes.

“As forças de segurança esvaziaram a praça após terem esgotado todas as opções de diálogo”, afirmou o porta-voz do Ministério do Interior, general Tarek al-Hassan, em um comunicado divulgado pela agência oficial BNA.

Ele afirmou que alguns manifestantes “se recusaram a se submeter à lei” e que por isso a polícia teve que intervir para dispersá-los.

Onda de protestos

Os protestos no Bahrein, onde a maioria muçulmana xiita vem sendo governada por uma família real da minoria sunita desde o século 18, são parte de uma onda de manifestações contra governos que vem tomando países muçulmanos no norte da África e no Oriente Médio.

Desde o início do ano, levantes populares já derrubaram os governos da Tunísia e do Egito.

O correspondente da BBC no Barein Ian Pannell disse que a resposta brutal das autoridades deixa claro que a família real viu nos protestos populares uma ameaça à sua permanência no poder.

Os manifestantes pediam a libertação dos prisioneiros políticos, a criação de empregos e a construção de casas populares, o estabelecimento de um Parlamento mais representativo, uma nova Constituição e um novo gabinete que não inclua o atual primeiro-ministro, xeque Khalifa bin Salman Al Khalifa, que está no cargo há 40 anos.

Em uma rara aparição na TV na terça-feira, o rei do Bahrein, xeque Hamad bin Isa Al Khalifa, lamentou as mortes de manifestantes e disse que continuaria com as reformas iniciadas em 2002, quando o emirado se transformou em uma monarquia constitucional.

Na quarta-feira, mais de mil pessoas compareceram ao funeral em Manama de um homem que havia sido morto na terça-feira durante confrontos com a polícia durante o funeral de outro manifestante.

Tensões

Desde a independência do país da Grã-Bretanha, em 1971, as tensões entre a elite sunita e a maioria xiita vêm frequentemente provocando conflitos.

Grupos xiitas se dizem marginalizados, sujeitos a leis injustas e reprimidos.

O conflito foi reduzido em 1999, quando o xeque Hamad se tornou emir. Ele libertou prisioneiros políticos, permitiu o retorno de exilados e aboliu uma lei que permitia que o governo detivesse indivíduos sem julgamento por até três anos.

Ele também iniciou um cauteloso processo de reformas democráticas. Em 2001, eleitores aprovaram uma Carta de Ação Nacional que transformaria o país em uma monarquia constitucional.

No ano seguinte, o xeque Hamad se autoproclamou rei e ordenou a formação de uma Assembleia Nacional.

Houve também uma maior abertura democrática e mais proteção aos direitos humanos. Apesar da proibição aos partidos políticos ter sido mantida, a Constituição do país permitiu o funcionamento de “sociedades políticas”.

Eleições gerais foram realizadas em 2002, mas a oposição boicotou a votação porque a Câmara Baixa do Parlamento, o Conselho de Representantes, teria o mesmo poder que a Câmara Alta, o Conselho Shura, com membros indicados.

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