Reforma começa a render fructos

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Ou talvez seja frutos. Sem o C. Ou ainda frutas, feito a banana ou o Carlinhos Boca de Veludo.

O fato, para não falar do facto, de Portugal não ter ainda cumprido com sua parte no que já foi chamado de (risos) “acordo” não impede o Brasil e aqueles paisotes africanos que, pobrezinhos, se viram obrigados, sob ameaça de tronco e chibata no lombo, de adotar o português, conforme sua expressão brasileira, de seguir adiante e escalar montes Roraimas de necessidade obscuras e motivos de galhofas para línguas mais complexas.

Paisões de língua mais complexa e rica, mais alfabetizados e criativos, jamais adotaram e nem sequer adoptaram reformas ou acordos inúteis. Tal como acontece com os Estados Unidos, a França e a Alemanha. Esses nunca quiseram uniformizar nada de nem ninguém a não ser um soldadinho na hora de um pau, nuclear ou não, comer. Reforma é com a gente. Vide nossos militares e outros anistiados.

Enfim, os verdadeiros objetivos do “acordo” ou “reforma” acabam de por (pôr?) suas manguitas de fora. O negócio é tutu. E tutu com torresmo e acompanhamento variado. Deu num jornal que me passou pelos olhos.

Sabemos: pouquíssimos jornais, ou mesmo nenhum, vivem de anúncio. E não é só de pasta dental. Livro também rende uns bons cobres. Os livros e seus donos, os editores, são filhos de Deus e, que remédio, têm que viver (embora nunca tenha sido explicado direito nessa história, o porquê de seu viver). Ler não é a nossa. Nem escrever. Passadismos, para ser franco. O importante é sobreviver em meio à essa “classe média” que, dizem, cresce a cada dia.

O que estava no jornal que me caiu diante dos olhos frente ao computador indiscreto? Muito simples, muito natural, tão esperado quanto a aposentadoria de algum Ronaldo que tenha jogado pela seleção brasileira. Com ou sem hipertiroidismo.

Segunda a informação informatizada, o governo – esse que está aí, estalando de novinho – decretara que estava aberta a licitação para a compra de 10 (eu disse dez) milhões de dicionários a serem distribuídos para escolas de todo tipo, tamanho e peso. Basta que tenham um arremedo de teto para chamarem de “sala de aula” que o novo dicionário estará lá dando presente. Pois, como tanta coisa nossa, será obrigatório. Presente, hein? Vou te contar.

Conforme a velha piada, os responsáveis pela irresponsabilidade linguística insistem em dizer que todo analfabeto ou “dimenó” tem até 2013 para aprender a escrever superómi ou desaprender toda aquela hifenagem que tanto trabalho deu. Para não falar no trema, que já era.

Bullying, fashion show e outros points, quero crer, estarão presentes nos citados dez milhões de volumes, pouco estéticos, mas – ah, Brasil!! – obrigatórios, feito já disse e me apraz repetir. Começaram então, editores, autores e livreiros a contar, bem devagarzinho, e é aqui que entra a velha piada, uuuum, doooiss, trêêês (ou será treees?) e assim por diante até chegar a 2013.

Enquanto isso, haja Flip e haja Flop, sandálias havaianas legítimas e essas preciosidades publicadas todas as semanas nesse festival de jabutis, jabotis e outros quelônios de real valor que causam inveja a qualquer literatura digna do nome.

Como somos o povo mais informatizado do planeta, há site (nunca sítio) que não acaba mais para liquidar com qualquer dúvida neo-ortográfica. Já contei sete: um.português.com e ortografa.com.br são apenas dois deles.

Em 2015, tudo indica, quem escrever, mesmo no mictório do botequim, e até do butequim, para não falar no livreco de contos ou romancete, indicando desconhecimento das novas regras pegará prisão. Até 2018, segundo consta, sem interrogatório violento ou ameaça de tortura. Depois... Depois a gente vê. Afinal, tudo isso quer dizer Brasil, já dizia o velho samba.

Ah, gostosura ser editor nesse país. Poder mudar em milhões e milhões livros as novíssimas palavras voo, creem, ideia, joia e destróier, para citar apenas algumas e com elas facturar pra valê. Consta que Eike Batista (e não Baptista) está pensando em entrar para o acirrado e suculento metiê. Os pobres podem não ter dentes, mas ô boca rica que são, minha gente!

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