Para analistas, diferenças no G20 impedirão acordo sobre desequilíbrio

Policial francês vigia sede do encontro do G20, em Paris Direito de imagem REUTERS
Image caption Na visão de analistas, reunião deve falhar em obter acordo

A reunião de ministros das finanças do G20, nesta sexta-feira e sábado em Paris, não deverá resultar em um acordo para estabelecer indicadores comuns para medir os desequilíbrios da economia mundial.

Definir tais indicadores é uma das prioridades da pauta deste encontro do G20, o grupo das maiores economias desenvolvidas e emergentes do planeta, presidido neste ano pela França. Mas, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, ainda existem grandes divergências entre os países sobre quais seriam as causas desses desequilíbrios.

“Quando não há acordo sobre o diagnóstico das causas do desequilíbrio, não é possível ter sucesso em encontrar um compromisso”, afirma o economista Michel Aglietta, professor de ciências econômicas da Universidade Paris-Nanterre.

“Os Estados Unidos colocam todo o problema nas costas da China, criticando a taxa de câmbio controlada e ligada ao dólar do país. A China diz que o problema é a política monetária americana, que vem colocando dinheiro demais em circulação”, acrescenta.

Cinco indicadores de desequilíbrio econômico estariam sendo discutidos nesta reunião do G20: o saldo das contas correntes (que inclui as exportações), taxas de câmbio reais, reservas internacionais, déficit ou dívida pública e poupança privada.

A China e a Alemanha temem que o indicador das contas correntes abra espaço para críticas em relação aos seus expressivos excedentes comerciais.

Os indicadores da taxa de câmbio e das reservas internacionais também provocam resistência por parte de alguns países, principalmente da China, que possui as maiores reservas de câmbio do mundo e é acusada de manter sua moeda fraca.

Reservas

O Brasil também não veria com bons olhos eventuais restrições ao acúmulo de reservas. O governo francês gostaria de definir regras para o acúmulo de reservas internacionais, que o presidente francês, Nicolas Sarkozy diz ser “improdutivo”.

“O tema dos indicadores de desequilíbrio econômico é muito sensível. As chances de obter um acordo são poucas. É mais fácil ser divulgado um texto para salvar as aparências. Os chineses farão tudo para que não resulte em algo com impacto”, diz Christophe Destais, diretor-adjunto do Cepii, centro de estudos sobre a economia mundial e especialista em finanças internacionais.

Inicialmente, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, havia dito esperar que um acordo sobre os indicadores de desequilíbrios da economia mundial já pudesse ser apresentado no sábado.

Mas devido às resistências de vários países, a ministra preferiu moderar suas ambições. Na quinta-feira, Lagarde afirmou que “um simples acordo preliminar sobre os elementos que permitem medir os desequilíbrios já seria um grande passo”.

“Há um debate intenso sobre o tema neste momento porque alguns países não querem ser identificados como os que conduzem tal ou tal política”, disse a ministra.

Polêmicas

A presidência francesa do G20 tenta pôr fim às polêmicas. Após enviar um recado ao governo brasileiro de que a França não propõe a regulação dos preços das matérias-primas, Lagarde declarou na quinta, se referindo aos grandes excedentes comerciais de alguns países, que a França “não quer dizer a um país para parar de ser competitivo e parar de exportar”.

A definição desses indicadores permitiria, segundo o governo francês, iniciar depois o processo de correção dos desequilíbrios entre os países, o que resultaria em “um crescimento econômico forte, equilibrado e durável”.

Para o economista Christian de Boissieux, professor da Universidade da Sorbonne, o G20, a ausência de acordo neste final de semana não representa um problema.

“Não haverá necessariamente convergência, mas é importante começar a discutir o assunto”, diz ele.

O ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, que chegou na quinta-feira a Paris, se reúne na tarde desta sexta com os ministros dos demais países do chamado bloco dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China).

Após esse encontro, Mantega será recebido no final da tarde, junto com os demais ministros das finanças do G20, pelo presidente Nicolas Sarkozy, no Palácio do Eliseu.

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