O fim do multiculturalismo

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Nesse tempão de Reino Unido atravessei incólume a miríades de “ismos”. Thatcherismo, monetarismo, metrossexualismo e até mesmo o tal de bissexualismo me bateu cílios convidativo.

A todos recusei meu endosso. Aqui cheguei com minha bagagem de “ismos” e com ela, mesmo guardada em um armário, junto com velhas revistas e fotos esmaecidas, vou vivendo por assim dizer.

Na verdade, o único “ismo” que me persegue, latindo atrás de meus calcanhares, como um cão sem dono, é o “velhismo”. Mas tusso, me apoio num poste da rua, sou evitado por maus elementos e agradeço às pessoas gentis que me perguntam se está tudo bem, se eu preciso qualquer coisa. Digo, ou tusso, mentindo, que “não”, vai tudo bem, é só uma descansadinha.

E vou levando, acompanhado ou só, tentando ser o mínimo canalha possível. Velhice envilece, ouvi ou cunhei um dia, e saco apenas do outro “ismo” que guardei na manga como um ás de copas: o estrangeirismo. Não frequento Igreja Universal nem saio em busca de pão de queijo ou caipirinha. Só sei que sou e sempre serei um forasteiro.

Estrangeiro me senti ao completar 6 anos em São Paulo e, de lá para cá, esses continuam a ser meus documentos para o resto da vida. Nada mudou em meu panorama interior.

O primeiro-ministro Conservador, David Cameron, fez há algumas semanas um discurso – pior: perorou – no qual decretava ou criticava o multiculturalismo. A exemplo de seus pares e ímpares como Angela Merkel, da Alemanha e Nicolas Sarkozy, da França. Segundo o premiê, o país precisava era de um liberalismo parrudo ou mais musculoso.

Andei acompanhando a história, cercado que estou por tantas etnias e culturas. O multi- ou bicultural fenômeno, ao menos em seu contexto político, advoga um status de igualdade aos diferentes grupos religiosos e étnicos que cada vez mais compõem a paisagem humana do Reino Unido.

Londres então não é brincadeira. Mosaico cultural aqui é mais popular que o novo museu Tate, os preparativos para os jogos de 2012 ou a roda gigante “Olho de Londres”.

Em outras e poucas palavras, o que Cameron estava dizendo, em bom português sem acordo ou reforma, via intérpretes fidedignos, era que “negócio de assimilação em massa é o cacete” ou “os tinflas”, para quem se lembra da velha gíria. Interação social é uma espécie de salada de frutas, ou bolo de fubá, com a cereja dos anglos no topo supervisionando os trabalhos. Para ser franco, parece-me razoável o esquema. Só que sem exageros. Sem incentivos ao racismo, if you please.

A Itália está dando um grito de socorro lá na ilha de Lampedusa avisando ainda que é para todo mundo tomar cuidado com os refugiados tunisianos. Também dedicam espaço na imprensa para o igualmente perigoso, embora mais ridículo, Berlusconi. Tem gente que não acaba mais por estas bandas tomando cuidado. Com tunisianos e seja lá qual for a raça que não seja anglo, saxônica ou, no mínimo, e olha lá, normanda e gaélica ou céltica.

Vejam o caso seguinte que só alguns poucos jornais publicaram.

A professora Elizabeth Davies, de 48 anos, logo ali ao lado, em Swansea, País de Gales (conta como multicultural?), foi formalmente acusada de humilhar crianças bengalesas, isto é, de Bangladesh, espirrando nelas purificador de ar ou desodorizador de ambientes para afastar o cheiro de, segundo ela, “cebolas e curries” além de outras especiarias multiculturais.

Elizabeth Davies, ou Madame Purificação, como já a chamam, fez o mesmo com os pupilos que soltassem pum, fazendo com que, depois, lavassem as mãos com desinfetantes fortes além de ficarem de pé em cima de jornal até urinar. Pelo seu ofício de mestra, Elizabeth Davies percebia perto de uns US$ 50 mil por ano. Foi demitida pelas autoridades que zelam pelo bem estar de crianças, o que me parece justo, correto.

Só não quero agora é que mexam com os esquemas do bispo Edir Macedo ou com os restaurantes onde servem tristes picanhas minguadas no bairro de Stockwell. Há que haver munição contra a tal da “saudade”, de que alguns conhecidos tanto falam.

Principalmente, e forçoso é, deixar em paz (quem avisa amigo é) os cinco terreiros de umbanda localizados em pontos estratégicos de Londres formando uma esotérica estrela no mapa da capital. E que ninguém que os frequente se atreva a dar seus endereços, sob pena de sofrerem “trabalho” feroz.

Despacho com frango, charuto, cachaça e tudo neles, é o que os caboclos locais prometem sem falar de perigosos santos e exus virem atrás e quebrar a perna do alcaguete.