No Alemão, aprovação à polícia dobra, mas 51% reclamam de tratamento

Soldados patrulham Complexo do Alemão Direito de imagem Reuters
Image caption Percepção do trabalho da polícia melhorou no Alemão

Uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que, após a ocupação do Complexo do Alemão (zona norte do Rio de Janeiro), em novembro passado, a quantidade de moradores do Complexo que avalia positivamente o trabalho da polícia praticamente dobrou, alcançando o patamar do restante da cidade (cerca de 60%).

Porém, o mesmo levantamento indica que, enquanto 70% dos moradores de outras áreas acham que a polícia os trata bem, no Alemão o índice é de 49%.

A enquete, realizada em janeiro – parte da pesquisa Índice de Percepção da Presença do Estado (IPPE) da FGV -, ouviu 1,2 mil moradores da cidade e teve perguntas específicas sobre as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e sobre a operação que levou à ocupação do Complexo.

Foram ouvidos 400 moradores do complexo do Alemão, 400 de bairros das zonas norte, oeste e central (Grupo A) e 400 da Zona Sul e dos bairros de Barra da Tijuca, na zona oeste, e Santa Teresa, no centro (Grupo B).

A primeira edição da pesquisa, com o mesmo número de ouvidos e nos mesmos locais, havia sido divulgada em julho do ano passado, o que permitiu avaliar a percepção dos cariocas antes e depois das mudanças no Alemão.

“A primeira pesquisa mostrou que a população do Alemão avaliava a polícia de uma forma muito desigual em relação ao restante da população. Agora, não há mais essa distinção. Mas o morador do Alemão não acha que recebe o mesmo tratamento das outras áreas da cidade”, disse o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, um dos autores do estudo.

Euforia

A pesquisa revelou que a operação no Complexo teve ampla aprovação da população, mas recebeu mais notas altas no restante da cidade do que no próprio complexo.

Quase 90% dos entrevistados das outras áreas atribuíram notas de 7 a 10 para a ação policial de novembro, contra 73% no próprio Alemão.

No Complexo, os números indicaram maior confiança na Justiça (44% dos moradores consideram que ela funciona para resolver problemas do bairro, contra 34% na pesquisa anterior) e na atuação da polícia, que na média teve 53% de aprovação, contra 29% no ano passado.

“Observamos uma melhor avaliação em relação à Justiça e à presença da polícia, mas não dos serviços básicos”, explicou Barbosa Filho. “O cidadão não percebeu maior atuação do Estado nas áreas de saúde, educação e saneamento.”

Para o economista, os resultados da comunidade devem ser relativizados porque a entrada do Estado é muito recente.

“Os maiores aumentos registrados na pesquisa devem estar contaminados por uma euforia após a ocupação. Só na próxima pesquisa é que vamos saber o que realmente mudou. Pode ser que alguns indicadores voltem a cair”, diz o economista.

Como exemplo ele cita o acesso à Justiça. Quando os 400 moradores do Alemão foram entrevistados, em janeiro, unidades de justiça itinerantes ainda estavam nas comunidades. “Agora, temos informação de que elas não estão mais, e temos que ver como esses serviços vão evoluir.”

Ir e vir

A avaliação da ação da polícia também apresentou melhora nas outras regiões (em média de 10 pontos percentuais), o que os pesquisadores atribuem à expansão das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que expulsaram o tráfico armado de favelas da cidade.

Porém, enquanto nos bairros mais ricos a sensação de poder ir e vir com liberdade caiu mais alguns pontos (de 44% para 42%), no Alemão, 81% das pessoas responderam que podem “ir a qualquer lugar que querem a qualquer hora”. Na enquete divulgada em julho, a sensação de liberdade registrada no Alemão já era bem maior que no resto da cidade, atingindo 69%.

Enquanto em média 96% das outras regiões se disseram a favor da instalação de uma UPP no Complexo do Alemão, o percentual na comunidade foi de 72%.

Sobretudo a avaliação do respeito aos direitos dos moradores durante a operação apresentou disparidade. No Alemão, 38% disseram que seus direitos não foram respeitados na ação.

“Mesmo com esse grau de desrespeito avaliado pela comunidade, observamos um conjunto de expectativas muito grande para o futuro”, diz Márcio Grijó, coautor da pesquisa. No Alemão, 76% dos moradores disseram acreditar que a operação vá melhorar sua qualidade de vida.

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