Debaixo da Cama

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Os Estados Unidos vão acabar de novo, como acabaram na década de 70. Vocês se lembram: desemprego, petróleo e extremistas nas alturas, país rachado, Nova York, Estados e municípios deficitários ou falidos, uma guerra que parecia interminável. Os profetas de rua nos avisavam com seus cartazes pelas esquinas da vida: “Repent! The End is Near (Arrependa-se! O Fim está Próximo)”.

Entre os profetas de mais um fim do mundo está o inquisidor Peter King, deputado republicano de Nova York. Os cavaleiros do apocalipse do deputado são terroristas muçulmanos, recrutados e doutrinados dentro dos Estados Unidos por imãs radicais.

Para salvar o país, contra conselhos de amigos e até deputados do próprio partido, Peter King começou nesta quinta a investigar os muçulmanos que vivem nos Estados Unidos. Ele é presidente da poderosa House Homeland Security Commission (Comissão de Segurança da Terra Natal na Câmara Federal).

Na década de 80, quando era um político em ascendência com apoio dos irlandeses, Peter King apoiou abertamente os terroristas do IRA, inclusive nas ações que envolveram morte de inocentes. Agora ele é grande caçador de terroristas muçulmanos nas mesquitas americanas.

O deputado acha que os muçulmanos não colaboram com a polícia no combate aos terroristas domésticos e que os imãs incentivam o terror contra os Estados Unidos.

Provas ele não tem ou não mostrou. Há evidências contrárias. Dos 165 suspeitos de planejar ações contra os Estados Unidos, 48 foram denunciados pelos próprios muçulmanos, em alguns casos, pelos próprios pais.

Os liberais e defensores de direitos humanos estão à caça de Peter King. Lembram os momentos degradantes da democracia americana como o confinamento de japoneses em campos de concentração na Segunda Guerra e a caça aos comunistas pelo senador Joe Macarthy na década de 50.

“Se o país for investigar por etnia ou religião, porque não investigar se os católicos italianos colaboram como deviam na guerra contra a máfia?”. Esta pergunta ele acha descabida, mas o deputado responde que defendia os terroristas irlandeses e eles não atacavam os Estados Unidos, o que é uma boa resposta.

O deputado tem defensores. Brigite Gabriel, uma estrela que sobe no universo conservador, faz fama e fortuna na campanha contra o islamismo, “uma religião do mal”.

Ela nasceu no Líbano, conta que a casa foi bombardeada pelos muçulmanos e foi salva pelos israelenses. Brigite Gabriel é um pseudônimo e não revela o nome verdadeiro porque tem medo de ser assassinada. Antes de vir para os Estados Unidos vivia em Israel.

Ela diz que os muçulmanos já se infiltraram no FBI, CIA, Departamento de Estado e nas principais agências do governo. Para combatê-los ela criou a ACT!, uma organização que vive e prospera com a campanha anti-islâmica nos Estados Unidos.

O ataque da religião está descrito no seu best-seller, Because They Hate: A Survivor of Islamic Terror Warns America (Porque eles odeiam: uma sobrevivente do terror islâmico alerta a America). Brigite acaba de estrear um programa na TV por assinatura e o deputado Peter King foi o primeiro convidado dela.

Os muçulmanos também fazem parte da conspiração gigantesca de um visionário muito mais influente e lucubrante, o radialista Glenn Beck, com seus 8 milhões de ouvintes em 400 estações, 5 milhões de visitantes mensais no site, seu programa diário na rede Fox e seus livros que ocuparam o primeiro lugar na lista de best-sellers em ficção e não-ficção.

Glenn Beck acusou Obama de odiar os brancos, vê no fim do mundo que se aproxima uma conspiração de socialistas, esquerdistas, muçulmanos, traficantes de drogas, cientistas, produtores de petróleo, Hollywood, George Soros e até o Charlie Sheen.

Está tudo no quadro negro do estúdio dele. Se você der um nome, Beck acha um lugar para ele na vasta e incompreensível conspiração. Nos últimos meses as teorias apocalípticas de Glenn Beck ficaram tão assombrosas que assustaram a direção da Fox, preocupada com perda de credibilidade. Os números da audiência do visionário começaram a cair na rede, mas o poder e a renda dele permanecem estáveis, prósperos e estratosféricos fora da televisão.

Esta semana, num sábado, tive uma dose de Peter King e Brigite Gabriel e estava na frente de uma lanchonete que atrai russos e judeus quando Glenn Beck entrou no ar.

Alguém bateu na janela do carro: “Vi pela sua placa que você é jornalista”.

“Sou. E daí?”

"Meu nome é Dimitri, era coronel no Exército russo. Isto tudo que está acontecendo no mundo, desde a destruição do Trade Center e agora na Tunísia, Egito, Khadafi, foi planejado pela KGB. Controla tudo. O Putin faz o que eles mandam.”

Dimitri me deu um papel com um site onde tudo está explicado e se mandou.

Afinal, quem está debaixo da minha cama? O Talebã? A KGB? Talvez seja hora de voltar para o Brasil.

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