Técnicos que tentam evitar desastre nuclear viram heróis no Japão

Funcionários dão informações por telefone sobre a situação na usina de Fukushima Daiichi Direito de imagem Reuters
Image caption Japão vem exaltando feitos de anôniimos que atuam para evitar crise

Nos filmes-catástrofe japoneses os heróis sacrificam tudo em prol do bem comum – estóicos, determinados e se recusam a recuar perante a adversidade ou a morte certa.

Estas são características que o país admira.

Agora, os jornais japoneses têm uma nova safra de heróis para admirar – os trabalhadores, integrantes dos serviços de emergência e cientistas batalhando para salvar a usina nuclear de Fukushima Daiichi.

Pouco sabemos a respeito de todas essas pessoas, a não ser por aqueles cujos parentes conversaram com a imprensa.

Uma mulher disse aos jornais que seu pai, que havia trabalhado em uma companhia elétrica há 40 anos, havia se voluntariado para ajudar. A partir de setembro ele iria se aposentar.

‘‘O futuro da usina nucelar depende de como vamos resolver essa crise’’, ele teria dito à sua filha. ‘‘Sinto que é minha missão ajudar.’’

'Os 50 de Fukushima'

O pequeno grupo de funcionários que permaneceu no local da usina nuclear quando as condições se agravaram foram batizados de ‘‘Os 50 de Fukushima’’ – ainda que agora provavelmente haja agora o dobro de pessoas trabalhando ali.

Rick Hallard, que trabalhou na indústria nuclear britânica por mais de 30 anos, afirmou que a pressão sobre eles será imensa, mas que eles provavelmente não sentirão isso até haverem terminado o trabalho.

‘‘Eles estarão concentrados nos riscos e ameaças’’, afirma. ‘‘Eles terão uma ideia muito clara de quais são os riscos e prioridades.’’

Na quarta-feira, o governo elevou o nível legal de radiação a que eles poderiam estar sujeitos de 100 para 250 mSv (milisieverts).

Isso é mais do que 12 vezes a dose do limite legal para funcionários que estão expostos à radiações na lei britânica.

Mas seria preciso estar exposto a uma dose muito maior para que alguém começasse a ver os chamados ‘‘efeitos iniciais’’ que as pessoas normalmente associam com doenças decorrentes de exposição à radiações, como a redução de células brancas do sangue.

Para começar a sentir náusea ou enjôo seria preciso estar exposto a uma dose de cerca de mil mSv (milisieverts).

Os ‘‘efeitos tardios’’ da exposição à radiação podem só se manifestar após muitos anos. É possível também sofrer um aumento na propensão em se ter câncer, mas essa é só uma possibilidade, não uma certeza.

De acordo com Rick Hallard, a pessoa encarregada da operação irá, provavelmente, estar a alguma distância dos reatores.

Pressão

‘‘Você precisa estar o mais distante possível do evento para poder pensar, de modo a não esquecer de nada e para reagir de forma muito rápida. É importante tirar a pressão de cima da pessoa encarregada.’’

Eles podem ser heróis sem rosto por enquanto, mas a sua bravura fez com que eles conquistassem a admiração de muitos japoneses.

‘‘Eles estão se sacrificando pelo povo japonês’’, afirma Fukuda Kensuke, um trabalhador de Tóquio. ‘‘Eu realmente me sinto muito grato aos que continuam a trabalhar ali.’’

‘‘Eles estão pondo as suas vidas na linha’’, endossa Maeda Akihiro. ‘‘Se aquele lugar explodir, é o fim para todos nós. Então, tudo que eu posso fazer é incentivá-los.’’

Exaltação

As missões dos pilotos japoneses que vêm utilizando helicópteros para ‘‘bombardear’’ a usina com água para tentar resfriar os bastões, desde a quinta-feira, foram restritas a menos de 40 minutos, a fim de evitar a exposição deles à radiação.

O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, rendeu tributo aos envolvidos nos esforços para estabilizar a usina nuclear, descrevendo-os como pessoas que ‘‘estão fazendo o máximo de esforço sem pensar duas vezes nos perigos a que estão expostos’’.

Quando esta crise acabar, algumas das histórias de heroísmo começarão a emergir. Muitos dos que estão batalhando para resfriar os bastões de combustível se feriram.

O mais difícil deve ser para suas famílias, que têm de aguardar e esperar em casa, sem saber a que perigos as pessoas amadas estão sujeitas. Que danos elas podem ter sofrido e podem problemas elas enfrentarão nos próximos anos.

‘‘Eu não quero que ele vá’’, disse uma esposa a um jornal japonês, mas, acrescenta, ‘‘ele trabalha na indústria nuclear desde os 18 anos de idade, e está confiante de que é seguro’’.