Indústria brasileira precisa ser mais competitiva, diz embaixador chinês

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Image caption Para Xiaoqi, "desindustrialização" no Brasil não tem a ver com a China

A ampla entrada de manufaturados chineses no Brasil se deve às “leis da economia de mercado”, e a indústria brasileira “tem que fazer seus próprios esforços” para aumentar a competitividade de seus produtos, diz o embaixador da China, Qiu Xiaoqi.

Após palestra no Instituto de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Xiaoqi disse que os produtos chineses entram no país porque são competitivos, e o fato de terem preços baixos e estarem disponíveis em boa quantidade “é bom para o mercado do Brasil”.

“Se a China não oferecesse esses produtos, o Brasil teria que pagar mais caro para importar de outros países. Se ocorre alguma desindustrialização no Brasil, isso não tem a ver com a China. É uma questão diferente”, afirma o embaixador.

Setores da indústria brasileira dizem que os baixos preços de produtos importados da China podem causar uma “desindustrialização”, inviabilizando a produção local.

Xiaoqi diz que as relações bilaterais se baseiam na lógica do mercado e beneficiam ambos os lados. Ele aponta que, em 2010, os negócios bilaterais resultaram num superávit comercial de US$ 5 bilhões para o Brasil.

Desequilíbrio

O gigante asiático é hoje o principal parceiro comercial do Brasil. Porém, de acordo com um levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), apesar de o saldo na balança comercial ser positivo para o Brasil, o desequilíbrio é grande.

Enquanto 97,5% das importações brasileiras da China em 2010 foram de bens manufaturados, apenas 5% das exportações brasileiras são provenientes deste setor.

Os principais produtos na pauta de exportações nacional são da indústria de mineração, produtos agrícolas e petróleo. Assim, quando se computam apenas os produtos manufaturados, o Brasil tem um déficit de US$ 25 bilhões.

Xiaoqi diz que o problema precisa ser enfocado “sob o ponto de vista do desenvolvimento”. "Se não fosse por esses produtos, quais outros o Brasil teria a oferecer à China para manter o nível de comércio entre os dois países?" , perguntou o embaixador.

“A China é uma economia aberta, uma economia de mercado. Até agora o governo brasileiro não reconheceu oficialmente, mas é uma realidade. E num mercado aberto a concorrência é muito forte”, afirma.

Para o embaixador, é uma questão de tempo para que produtos brasileiros “de maior valor agregado” entrem no mercado chinês. “Temos que buscar uma solução para isso no processo de desenvolvimento, mas não é uma coisa que acontece de um dia para o outro”, diz.

Desenvolvimento social

Na palestra, promovida pela Coppe/UFRJ e pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas (PPED/ UFRJ), Xiaoqi explicou as mudanças estabelecidas pelo 12º Plano Quinquenal, apresentado há duas semanas pelo governo chinês.

Embora o país venha crescendo num ritmo de 10% ao ano, o plano estabelece, para os próximos cinco anos, a meta de crescer 7%.

O objetivo é fazer com que o crescimento seja mais “inclusivo” e promova maior desenvolvimento social. Além disso, segundo o embaixador, a indústria buscará soluções para consumir menos energia, usar menos recursos naturais e proteger mais o meio ambiente.

“Nos últimos anos, dedicamos muita atenção à eficiência do desenvolvimento econômico, mas não o suficiente para o progresso social. Isso é algo que temos que corrigir nos próximos anos. No meu juízo, esse é o maior desafio e dificuldade que vamos enfrentar.”

Parte do plano para garantir maior dignidade à população chinesa é aumentar os salários, diz Xiaoqi.

“Queremos que o desenvolvimento econômico beneficie mais o nosso povo. Então inevitavelmente os custos de mão de obra vão aumentar, e isso seguramente vai trazer um aumento do preço dos produtos de exportação”, afirma, perguntando-se como os brasileiros vão reagir.

“Quando os produtos que se importam da China são baratos, vocês se queixam. E quando são caros, vocês se queixam outra vez”, aposta.

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