Deteriorações na Líbia

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

A situação deteriora na Líbia. Pelo menos até domingo, dia 20. Que foi quando deixei de acompanhar pelos canais de TV os telejornais de 24 horas por dia. Era muito deterioração para um deteriorador só.

O tsunami e o terremoto no Japão acompanhei e acompanho por uns 15 minutos, no máximo, por dia, desde o infausto acontecimento. Não é que eu não esteja ligando. Aquilo me deteriora.

Em qualquer filme do Tom Cruise a coisa é mais brava (aluguei Knight and Day, com o galã-mirim no fim de semana. Muito fraquinho. Até os efeitos especiais gerados por computador são inferiores às enxurradas e dilacerantes cenas que os japoneses captaram e mostram ao mundo. A Cameron Diaz tem it e oomph. Não deteriora. Mas estou sendo leviano e aqui encerro estas ponderações que beiram o irresponsável, para não dizer insensível).

Visto isso (2 estrelas e o bonequinho saiu no meio), tentei, como há décadas venho tentando, encontrar meu lugar no mundo através de suas misérias, que poucas não são.

A situação deteriora na Líbia. E onde a situação não deteriora? Viver é deteriorar. Concluí vendo o noticiário matinal na televisão. Lá estavam eles: âncoras, um rapaz e uma moça. Com sono, nervosos, inseguros. Não tinham filme a mostrar. Que faz a televisão nessas horas? Simples: convida autoridades para opinar, diagnosticar, prognosticar.

Lá estavam aquilo que nossos jornalistas gostam chamar de os “suspeitos habituais”. Brigadeiros, marechais do ar, diplomatas, políticos eleitos ou na bica de pegar uma vaga no Parlamento, professores dos mais diversos centros de estudo, todos técnicos, rrrrealmente técnicos. A tchiurma.

Vibrava eu quando reconhecia um. “Esse foi o que previu a vitória do Iraque”, “Aquele afirmou que era bobagem mandar tropas para o Afeganistão”. Cheguei a reconhecer, como se fosse um velho amigo, alguém (acho que era professor de educação física da London School of Economics) que vira pela última vez quando da conflagração (ou será, tecnicamente, conflito, levante, massacre, genocídio? Nunca deixam claro) na Bósnia ou Serra Leoa ou Haiti.

Por aí. Tanto faz. É tudo a mesma gente deteriorando-se a olhos vistos correndo e berrando pelas ruas “Morte aos invasores!”, pintando slogans nas paredes e muros e depois esperando por uma pausa, sempre cortesia da ONU, para poderem respirar e seguirem a vida normal do resto do mundo. Ou seja, deteriorarem, Mas devagar e na ordem por eles desejada. A democracia é algo muito pessoal.

O resto do mundo. A situação deteriora no resto do mundo. Bahrein, Somália, Argélia, Jordânia, Irã, haja dedos para contar, cabeças para degolar, haja canais para cobrir, haja convidados para, mediante cachê razoável, darem uma chegada até o estúdio e dizer... que a situação deteriora e ainda mais deteriorá. Entropia, pois não?

Volto ao meu caso pessoal, ao egoísmo de quem quer assistir a versão do velho romance de D.H. Lawrence na TV, os assassinos sequenciais de todas as séries policias americanas e algumas “comediotas” de 30 minutos, que, se deterioram, a gente nem sente e não tem a menor importância.

Impossível, para mim, até o tal domingo dia 20, era mandar para corner ou até mesmo escanteio a Líbia, seu doudo e pitoresco líder, Muamar Khadafi, o filho de cabeça rapada também, e um ministro que cismava de se referir às tropas dos Estados Unidos, Reino Unido, França, Canadá e Itália como “invasores colonialistas”.

Após o “nada consta” e o “bola no centro” dado pela ONU, deu início aos trabalhos bélicos (logo quem, hein?) a França. 20 aviões do país que nos deu Brigitte Bardot e Serge Gainsbourg sobrevoaram, carrancudos, a região ocupada pelos insurgentes em Benghazi, sua capital. Khadafi, talvez inspirado pelos franceses que tanto admira (Pétain, Laval) deu o sinal de guerra, “Às armas, cidadãos!”. Raios, além do mais plagiador de hino de país alheio” Aí que, para mim, a situação deteriorou de vez na Líbia. Mísseis Cruise (nenhum parentesco com Tom) cobrindo os céus do original país. O general grego Leônidas babaria de inveja. “Melhor, lutaremos à sombra”, diria para suas barbas negras.

Deteriorou um pouquinho mais quando soube que o presidente Barack Obama deu a ordem para o ataque quando ainda no Brasil. Pergunto: pode? É legal? Não fere protocolo diplomático algum? Obama é ladino. Dada a ordem, sapecou no mesmo ritmo que tem “grande apreço” pela presença do Brasil na ONU.

Apreço? Ora, já se viu. E seguiu em frente, com a sombra do Cristo Redentor ainda a lhe cobrar o rostão orelhudo. De fininho, tirou o corpito esbelto fora. Quer dizer, um pouco fora. O resto a “exclusão aérea” e da bombarada caindo fico com o linha avançada da equipe da ONU.

Sem falácias, pergunto: quem são os rebeldes nesse pau? O Khadafi, no poder há 42 anos, ou esses gatos pingados (cada vez em números menores) que acham que o Irã virá voando para salvar-lhes a pouca pele que lhes resta?

Notícias relacionadas