Iêmen: seria o começo do fim para o presidente Saleh?

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Image caption Manifestantes participam de enterro de ativistas mortos.

O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, celebrará 66 anos na segunda-feira, enfrentando a realidade de que um poderoso rival militar - que age em nome da revolução popular iemenita - está tentando remover sua família do poder.

Tanques sob o comando do filho mais velho de Saleh, Ahmed, estão estacionados às portas do palácio na capital, Sanaa. Tanques também estão estacionados em frente ao Ministério da Defesa e ao Banco Central.

Estes mecanismos de defesa para proteger o controle de Saleh se seguiram ao anúncio de que o general Ali Mohsin al-Ahman havia manifestado seu apoio aos protestos pró-democracia no país.

A dissidência do general emula atitudes semelhantes de um número cada vez maior de ministros, embaixadores, parlamentares e empresários proeminentes, tomadas nos últimos dias.

As dissidências vêm aumentando desde sexta-feira, quando franco-atiradores abriram fogo contra um acampamento de manifestantes contrários ao governo em Sanaa, matando mais de 50 pessoas.

Autoridades dos EUA condenaram a violência de sexta-feira "nos mais duros termos" e expressaram esperança de que o Iêmen ainda consiga uma solução política, através de negociações e do diálogo.

Impasse

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Image caption O presidente Ali Abudllah Saleh

O governo dos EUA vem mantendo a mesma linha de negociações e diálogo desde que o movimento pró-democracia no Iêmen ganhou força, em janeiro.

Entretanto, a confiança necessária para conseguir um acordo político não existe, e políticos da oposição do Iêmen calculam que não têm nada a ganhar em um possível acordo de coalizão.

Como resultado, um impasse prevalece, enquanto jovens iemenitas - frustrados com o fracasso de uma geração inteira de políticos - saem às ruas em números cada vez maiores.

As tentativas recentes do governo americano de encorajar um sistema bipartidário foram baseadas em uma interpretação errada da dinâmica política do Iêmen.

Enquanto diplomatas vêm focando sua atenção nos partidos políticos já estabelecidos, os hiatos entre as instituições formais do Estado e as elaboradas redes de apadrinhamento e corrupção - que são intrinsecamente ligadas ao regime de Saleh - vêm gradativamente à tona.

Com a dissidência do general Ali Mohsen al-Ahmar, a competição de longo prazo entre facções diferentes do regime finalmente veio à tona.

Agora, os iemenitas esperam para ver o que acontecerá, e o serviço de microblogging Twitter está cheio de especulações. Muitos iemenitas expressam júbilo, ou descrédito, diante da perspectiva de que Saleh poderia ser retirado do poder após mais de 30 anos. Outros alertam sobre um massacre - ou uma guerra civil.

Manifestantes pró-democracia estão nervosos, temendo que sua revolução popular seja sequestrada por militares ou por interesses comerciais, que simplesmente dariam uma nova face ao governo do país, sem fazer mudanças substanciais no status quo.

Neste cenário, o general Amar provavelmente agiria como mediador incontestável, enquanto o político da oposição Hameed al-Ahmar poderia surgir como um dos beneficiados.

Interesses americanos

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Image caption Militantes da Al Qaeda no Iêmen

Autoridades dos EUA podem ter que refazer seus cálculos sobre seus interesses de curto e longo prazo no Iêmen.

Até agora eles adotaram uma postura cautelosa em relação a Saleh - postura que parecia dissonante com mensagens muito mais duras passadas ao ex-presidente do Egito Hosni Mubarak e ao coronel Muamar Khadafi na Líbia. Ambos ouviram dos EUA que seu tempo havia terminado após dias de revolta popular em seus países.

Um fator chave que influencia a tomada de decisão pelos EUA é sua avaliação de que a Al-Qaeda na Península Árabe, baseada no Iêmen, está entre os ramos mais ativos da organização terrorista global.

Por muitos anos, o governo dos EUA vêm fornecendo ajuda militar e treinamento para as forças de segurança e inteligência de elite sob o comando do filho de Saleh e de seus sobrinhos. A Casa Branca está nervosa com a possibilidade de perder conexões com aliados locais, que vêm colaborando com Washington em operações antiterrorismo.

Entretanto, enquanto os EUA tentarem manter Saleh e sua família no poder, estarão arriscando seus próprios interesses. Os iemenitas estão furiosos com o fato de que unidades das Forças Centrais de Segurança, apoiadas pelos EUA e comandadas por um dos sobrinhos de Saleh, tiveram um papel tão proeminente na repressão aos protestos pró-democracia.

Bombas de gás lacrimogêneo feitas nos EUA, que deveriam ser usadas em operações contra o terrorismo, foram usadas na repressão aos protestos contra Saleh.

Por muitos anos, Saleh vem jogando com os temores de que o país mergulhe no caos se ele perder o controle do Iêmen, mas seu apoio interno está lentamente desaparecendo.

Ginny Hill dirige o Fórum Iemenita na Chatham House, um think tank internacional.