Obama defende ação na Líbia e diz que papel dos EUA será limitado

Barack Obama Direito de imagem AFP
Image caption Obama tem sido criticado nos EUA pela intervenção militar na Líbia

Em um pronunciamento transmitido pela TV americana, o presidente Barack Obama defendeu nesta segunda-feira a ação militar dos Estados Unidos na Líbia, em um momento em que crescem as críticas internas à operação.

Obama disse que a ação americana salvou um número “incontável” de vidas e que enquanto o coronel Muamar Khadafi – a quem ele chamou de “tirano” – não deixar o poder, a Líbia continuará a ser um lugar perigoso.

No entanto, o presidente americano disse que ampliar a missão para forçar a saída de Khadafi seria um erro e reafirmou que o comando das operações, inicialmente lideradas pelos Estados Unidos, será transferido para a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) a partir desta quarta-feira.

“É claro que não há dúvida de que a Líbia – e o mundo – estará melhor com Khadafi fora do poder”, disse Obama, em Washington. “Mas ampliar nossa missão militar para incluir uma mudança de regime seria um erro”, afirmou.

Segundo Obama, caso os Estados Unidos e seus aliados tentassem derrubar Khadafi com uso de força, teriam de colocar tropas americanas em terra e arriscariam matar “muitos civis” líbios em ataques aéreos. Isso aumentaria também os custos da ação e a fatia de responsabilidade americana sobre o futuro no país.

“Nós já trilhamos esse caminho no Iraque”, disse Obama, lembrando que a mudança de regime naquele país levou oito anos, milhares de vidas americanas e iraquianas e quase US$ 1 trilhão.

Críticas

As declarações de Obama vêm em meio a crescentes críticas internas sobre a ação americana na Líbia, especialmente pela falta de objetivos definidos e de um prazo para o fim das operações. Nos últimos dias, ele já vinha tentando conter as críticas e transferir o comando oficial da missão para a Otan.

No pronunciamento, o presidente ressaltou que os Estados Unidos não agiram sozinhos, mas em conjunto com uma “coalizão forte e crescente” e disse estar cumprindo a promessa de que o papel americano seria “limitado”.

Segundo Obama, a Otan assumiu o comando das operações para garantir o cumprimento do embargo de armas e da zona de exclusão aérea na Líbia. “Na noite passada, a Otan decidiu assumir a responsabilidade adicional de proteger os civis líbios. Essa transferência dos Estados Unidos para a Otan será realizada na quarta-feira”, disse.

De acordo com o presidente, com a transferência “os riscos e os custos da operação” para os militares e os contribuintes americanos serão reduzidos “significativamente”.

Missão

A ação militar americana na Líbia foi autorizada nove dias atrás – quando Obama estava em Brasília, em visita oficial ao Brasil – e segue uma resolução aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU.

A resolução, aprovada sem o voto do Brasil, que se absteve, prevê o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea na Líbia e “todas as medidas necessárias” para proteger “civis e áreas habitadas por civis” de ataques por parte das forças do coronel Khadafi.

A revolta na Líbia foi iniciada no mês passado, em meio a uma onda de levantes populares em países árabes e muçulmanos que já derrubou os líderes da Tunísia e do Egito. O líder líbio – no comando do país há mais de 40 anos – vem reagindo com violência aos rebeldes que tentam tirá-lo do poder e já conquistaram o comando de parte do país.

“Confrontado com oposição, Khadafi começou a atacar seu próprio povo”, disse Obama, ao afirmar que caso os Estados Unidos e seus aliados esperassem “mais um dia”, a cidade de Benghazi, reduto rebelde, “sofreria um massacre”.

“Fomos confrontados com a perspectiva de violência em uma escala horrível”, disse.

“Eu autorizei ação militar para interromper a matança e fazer cumprir a resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU”, afirmou. “E hoje posso relatar que nós interrompemos o avanço mortal de Khadafi.”

Conferência

Ao defender a ação americana, o presidente se referiu às críticas e disse que “muito do debate em Washington coloca uma falsa escolha quando se trata de Líbia”.

“Como presidente, eu me recusei a esperar pelas imagens de um massacre e valas comuns antes de agir”, disse. “Além disso, os Estados Unidos têm um interesse estratégico em evitar que Khadafi devaste seus opositores. Um massacre levaria milhares de novos refugiados através das fronteiras líbias, colocando enorme pressão sobre os pacíficos – mas ainda frágeis – processos de transição no Egito e na Tunísia.”

Antes do pronunciamento, Obama se reuniu em videoconferência com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, e a chanceler alemã, Angela Merkel. Segundo a Casa Branca, os líderes concordaram que Khadafi “perdeu qualquer legitimidade para governar e deve deixar o poder”.

Nesta terça-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, vai se reunir com representantes da oposição líbia e de mais de 30 países em uma conferência em Londres.

“Essas discussões vão se concentrar no tipo de esforço político necessário para pressionar Khadafi e ao mesmo tempo apoiar uma transição para o futuro que o povo líbio merece”, disse Obama.

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