Morre aos 79 anos o ex-vice-presidente José Alencar

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Image caption Desde 1997, vice de Lula passou por tratamentos contra o câncer

O ex-vice-presidente da República José Alencar morreu nesta terça-feira aos 79 anos, confirmou a assessoria do hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde estava desde segunda-feira.

Segundo boletim médico divulgado pelo hospital, Alencar morreu às 14h41, em decorrência de câncer e falência múltipla de órgãos.

Alencar foi internado nessa segunda-feira na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com um quadro de obstrução intestinal com sangramento, além de peritonite (inflamação na membrana que cobre as paredes abdominais).

O ex-vice-presidente foi diagnosticado com câncer em 1997. A partir de então, ele passou por diversos tratamentos e cirurgias devido aos tumores, muitas vezes com longas internações hospitalares.

Filiado ao PRB, Alencar foi vice-presidente durante os dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Além disto, em 1998, ele foi eleito senador por Minas Gerais.

Leia mais na BBC Brasil: Para Dilma, Alencar deixa marca indelével; Lula lembra vice como irmão

Biografia

José Alencar Gomes da Silva nasceu em outubro de 1931, no município mineiro de Muriaé, onde foi criado junto com seus 14 irmãos.

Trabalhou como balconista dos 7 aos 18 anos, quando então conseguiu um empréstimo para abrir seu próprio negócio – a loja “A Queimadeira”, que vendia de calçados a guarda-chuvas. Por esse motivo, os estudos foram até apenas a quinta série.

O grande salto profissional na vida de Alencar aconteceu em 1967, quando decidiu abrir uma fábrica de tecidos, a Coteminas. O negócio deu certo: a empresa conseguiu competir em pé de igualdade com os chineses e se transformou em um gigante internacional do setor têxtil, com um faturamento de R$ 3,6 bilhões em 2008.

O envolvimento com a política começou nos anos 90, após um período à frente de associações de classe. Em 1994 Alencar decide candidatar-se ao governo de Minas Gerais, mas perde a disputa, ficando em terceiro lugar.

Quatro anos depois, com a ajuda de uma campanha milionária para a época e praticamente toda financiada com dinheiro próprio, Alencar é eleito senador pelo PMDB.

Em outubro de 2000, quando comemorava seu aniversário, em uma festa em Belo Horizonte, José Alencar conheceu Lula.

Com seu discurso de industrial que enfrentou dificuldades e que deu certo, e ao mesmo tempo de defensor dos interesses nacionais, o senador Alencar passou a ser disputado tanto por petistas quanto por tucanos, que o queriam como vice na chapa presidencial para a campanha de 2002. Venceram os petistas.

Durante o primeiro mandato do governo Lula, o vice-presidente tornou-se um dos principais críticos à política monetária do Banco Central, que em 2003 iniciou um período de forte alta dos juros.

Em 2005, Alencar teve seu nome envolvido no escândalo do mensalão: o PT teria pago R$ 1 milhão à Coteminas, valor que não aparecia nas contas do partido.

Logo depois, o então presidente da empresa, Josué Gomes da Silva, informou à Polícia Federal que o valor referia-se ao pagamento de 2.750 camisetas encomendadas pelo PT e que tinha as notas fiscais da operação.

Saúde

A luta contra o câncer começou em 1997, quando dois tumores – um no rim direito e outro no abdômen – foram descobertos. Alencar foi então submetido à primeira cirurgia e os nódulos foram retirados. No entanto, Alencar perdeu o rim direito e parte do estômago.

Em 2002, a doença volta a se manifestar, dessa vez na próstata. A partir daí, Alencar passa a ser freqüentemente submetido a cirurgias. Foram 17, ao todo.

Em uma delas, realizada em janeiro de 2009, o vice-presidente ficou 17 horas na sala de operações para a retirada de 15 tumores na região do abdômen.

Amigos, parentes e políticos que visitaram Alencar no hospital nessas ocasiões, sempre se referiam ao “bom humor” e à “coragem” do vice-presidente, apesar dos problemas de saúde.

Em novembro de 2010, Alencar foi vítima de um infarto no miocárdio, depois do qual foi submetido a um cateterismo.

Devido a seu estado delicado de saúde, Alencar não foi à cerimônia de posse da presidente Dilma Rousseff, em 1º de janeiro deste ano. Dias antes, ele recebeu a visita de Dilma e do presidente Lula, no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Em 16 de março, o ex-vice-presidente deixou o hospital depois de mais de 30 dias internado, quando foi tratado de uma peritonite.

No entanto, ele voltou a ser internado no Sírio-Libanês no dia 28 de março, devido a um quadro de obstrução intestinal. Alencar havia apresentado o mesmo problema em novembro.

Casado com Mariza Campos Gomes da Silva, Alencar deixa três filhos e dois netos.

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