Imigrantes rurais chineses enfrentam status de cidadãos de 'segunda classe'

O casal Guo Guiyun e Li Zhan Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Guo Guiyun e Li Zhan trabalham em Pequim há seis anos

Um número crescente de chineses que deixaram as áreas rurais em busca de trabalho em cidades mais ricas enfrentam a realidade de viver como cidadãos de segunda classe no país que ajudaram a elevar para o segundo lugar no ranking das maiores economias do mundo.

Estimativas sobre o total de imigrantes rurais sem acesso ou com acesso limitado aos benefícios concedidos aos cidadãos urbanos variam bastante, mas ficam em torno de 200 milhões de pessoas. São chineses como o casal Guo Guiyun e Li Zhan, ambos de 34 anos, que trabalham há seis anos em Pequim.

Na capital, eles não têm acesso a direitos com o reembolso parcial de tratamento médico, seguro-desemprego ou mesmo à escola pública para o filhos. O casal enviou o primeiro filho para morar com os avós na província de Hebei quando ele chegou à idade escolar.

“Chorava todos os dias de saudade do meu filho”, conta a mãe, que viu o filho apenas uma vez por ano em seis de separação. “Ele já tem 12 anos e é muito bonito”, acrescenta a chinesa, orgulhosa. "Eu tenho uma foto dele no meu celular, mas está sem bateria."

A vida do casal melhorou, tiveram uma filha há um ano e três meses e pretendem mantê-la em Pequim. “Temos um pouco mais de dinheiro agora. Não vamos passar de novo pelo que passamos”, disse Li Zhan que, com o marido, comprou um van que usa na revenda de cervejas. O casal aluga um cômodo em um conjunto de cortiços em Pequim.

Registro de nascimento

Nos últimos 30 anos, com as reformas econômicas, milhões de trabalhadores rurais migraram para as cidades, transformando-se na mão-de-obra barata que deu à China uma de suas principais vantagens competitivas em relação a outros países. Viraram cidadãos urbanos de fato, mas são cidadãos rurais por registro de nascimento.

Pelo sistema de registros na China, chamado de Hukou, um chinês nascido em uma cidade na zona rural, por exemplo, terá acesso a benefícios apenas em sua cidade de origem.

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Image caption Zheng Ping migrou para a cidade pois sua renda 'estava baixa demais'

O sistema já passou por algumas reformas em diferentes regiões, principalmente nos últimos anos, permitindo, por exemplo, que o direito seja hereditário também pelo lado materno.

O governo admite que reduzir a desigualdade entre os cidadãos urbanos e os imigrantes é um dos principais desafios do país para os próximos anos. Mas propostas apresentadas recentemente sugerem que o sistema deverá ser reformado gradualmente, começando em cidades de pequeno e médio porte.

Em regiões como Pequim, mudar as regras teria um custo muito elevado e poderia agravar ainda mais as consequências do inchaço populacional já enfrentado pela capital.

A população urbana da China, de 630 milhões de pessoas, aumentou 37% na última década, em grande parte pelo êxodo rural que continua inflando a população das cidades mais ricas.

Em Tianjin, a agricultora de 52 anos Zheng Ping, da província de Hebei, começou a trabalhar recentemente em seu primeiro emprego na cidade.

"Decidi virar uma trabalhadora imigrante porque a renda na minha terra estava baixa demais", disse à BBC Brasil, enquanto esperava em frente à estação central por uma conhecida que a levaria para seu trabalho. "Planto milho, mas é muito pouco. É a primeira vez que saio da minha província", disse a chinesa, mãe de dois filhos.

"Se não der certo, terei de voltar. Pelo menos lá tenho direito a uma ajuda do governo local se a situação ficar muito ruim, mas nem sei de quanto é", acrescentou a trabalhadora, que carregava seus pertences em uma pequena caixa de papelão. Como ela, havia dezenas de trabalhadores imigrantes com malas improvisadas esperando na frente da estação por transporte para diferentes empregos.

Recentemente, o premiê Wen Jiabao, mencionou o problema ao discursar sobre as prioridades do governo para este ano. Ele disse que “a China vai gradualmente garantir que trabalhadores rurais imigrantes que tenham empregos estáveis e estejam morando em cidades há alguns anos sejam registrados como residentes urbanos, de acordo com as condições e de forma escalonada”.

Mas, para muitos imigrantes, como o casal de Hebei, que vive em Pequim no equivalente chinês a uma favela, a situação atual já é muito melhor do que no passado.

“Nossa vida só melhora. Nossos líderes sabem o que fazem, são os melhores do mundo”, disse Guo Guiyun, que acabara de voltar de uma rodada de entrega de cervejas em pleno feriado chinês. "Quem trabalha muito vai para frente."

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