Forças de oposição invadem residência do presidente da Costa do Marfim

Tanque com bandeira francesa perto de ponte em Abidjan (Reuters) Direito de imagem BBC World Service
Image caption Tanque com bandeira francesa perto de ponte em Abidjan (Reuters)

As forças de oposição ao líder contestado da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, atacaram nesta quarta-feira a residência presidencial na maior cidade do país, Abidjan, onde ele está abrigado.

Gbagbo estava negociando com a ONU a respeito dos termos de sua saída da Presidência, depois de ser cercado pelas tropas leais ao líder da oposição Alassane Ouattara.

Ouattara é reconhecido pela comunidade internacional como vencedor da eleição presidencial realizada em novembro, mas Gbagbo se recusa a deixar o cargo afirmando que houve fraude em favor do adversário.

Dois dias de combates pesados na capital foram suspensos na noite de terça-feira e as negociações entre Gbagbo e as forças de oposição avançaram durante a noite.

Mas, com a suspensão das negociações, uma fonte do governo da França informou que artilharia pesada pôde ser ouvida na residência de Gbagbo, enquanto as tropas que apoiam Ouattara se moviam para a residência.

"Vamos tirar Laurent Gbagbo de seu buraco e o entregar ao presidente da República", disse Sidiki Konate, porta-voz do primeiro-ministro nomeado por Ouattara, Guillaume Soro.

Aliados de Gbagbo descreveram a movimentação como uma tentativa de assassinato, mas as autoridades representantes de Ouattara afirmaram que os soldados receberam ordens para não matar o líder marfinense.

Gbagbo e sua família estão em um bunker na residência presidencial, cercada por tropas leais à oposição.

De acordo com o correspondente da BBC nos arredores de Abidjan, John James, as maior parte das forças de Gbagbo depôs suas armas e ainda não está claro quanta resistência as forças leais a Ouattara vão encontrar. A sensação é de "fim de jogo" para Gbagbo, segundo o correspondente.

Rendição

Nesta quarta-feira, Gbagbo negou que renunciaria à Presidência e disse que aceitaria negociar com Alassane Ouattara, que teve sua vitória nas eleições de novembro reconhecida pela Comissão Eleitoral do país e pela ONU.

Um dia após o governo francês informar que o líder marfinense estaria negociando a sua rendição, Gbagbo disse por telefone à TV francesa LCI que aceita uma recontagem dos votos das eleições presidenciais de novembro.

"Venci as eleições e não negocio nenhuma renúncia. Acho absolutamente incrível que o mundo esteja jogando este jogo de pôquer", disse.

O líder afirmou que está "atualmente discutindo as condições de um cessar-fogo com as forças em campo", mas que "no nível político nenhuma decisão foi alcançada".

Na capital marfinense, o clima é de temor por um maior derramamento de sangue. O repórter da BBC na cidade Andrew Harding diz que houve troca de tiros esporádicas entre milícias pró e anti-governo. Muitos moradores estão temerosos e pequenos grupos têm deixado a cidade a pé.

Na semana passada, forças leais a Ouattara lançaram uma ofensiva militar para tentar retirar Gbagbo do poder e desde então o país está imerso em combates.

Diversos generais tiraram seu apoio ao atual presidente e pediram que suas tropas interrompam as operações.

Comandantes leais a Ouattara indicaram que só aceitarão a rendição de Gbagbo se ela for incondicional.

Um porta-voz de Gbagbo, Ahoua Don Mello, afirmou que estão ocorrendo "negociações diretas baseadas nas recomendações da União Africana, que afirmam que Alassane Ouattara é o presidente".

"Eles também estão negociando condições jurídicas e de segurança para Gbagbo e seus familiares", disse Don Mello.

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Image caption Forças leais a Ouattara lançaram ofensiva na semana passada

Em um comunicado na terça-feira, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, voltou a insistir na saída imediata de Gbagbo.

"Cada dia que os confrontos persistem irá trazer mais sofrimento e adiará mais o futuro de paz e prosperidade para o povo de Cote d’Ivoire", disse o líder americano, usando o nome do país em francês, língua oficial marfinense.

Eleições

Na segunda-feira, a ONU e a França bombardearam o complexo presidencial em Abidjan, depois que a missão das Nações Unidas no país foi submetida a ataques.

A França, antigo poder colonial no país, mantém forças de paz na Costa do Marfim desde o fim da guerra civil, há uma década.

Segundo o comandante das forças de paz da ONU no país, Alain Le Roy, a decisão de lançar o ataque foi tomada com base em uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que autoriza esse tipo de ação.

A ONU anunciou ainda que enviará à Costa do Marfim um representante para investigar um massacre de centenas de civis na cidade de Duekoue, no oeste do país, na semana passada.

Simpatizantes de Ouattara e de Gbagbo se acusam mutuamente pelas mortes. Segundo o Comitê da Cruz Vermelha Internacional, pelo menos 800 pessoas teriam sido mortas.

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